Saberes tradicionais apontam caminhos para combate à crise ambiental
Saberes tradicionais contra a crise ambiental

Os povos indígenas, comunidades quilombolas, ribeirinhas e periféricas apontam caminhos para mitigar os efeitos da crise climática e preservar a biodiversidade por meio das culturas tradicionais e da participação social. O tema foi discutido no painel Saberes tradicionais e soluções climáticas, durante a 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura, promovida pelo Ministério da Cultura (MinC) no município de Aracruz (ES).

Valorização dos conhecimentos ancestrais

Especialistas e representantes dessas populações ressaltaram a necessidade de investimentos para manter e disseminar essas práticas culturais, muitas já reconhecidas como tecnologias sociais e ambientais. Edvando Vieira, representante da comunidade tradicional de Fundo de Pasto Várzea Grande, em Oliveira dos Brejinhos (BA), afirmou que os saberes das comunidades já oferecem respostas para as demandas dos territórios. "O que a gente precisa é garantir que esses conhecimentos sejam reconhecidos e que os recursos cheguem na ponta, fortalecendo quem já cuida do meio ambiente", acrescentou.

Esses saberes abrangem práticas de cuidado, manejo sustentável dos recursos naturais e estratégias de resiliência, indicando possíveis soluções contra os efeitos da emergência climática. Carla Craice, coordenadora de Temas Transversais do MinC, destacou que o ministério vem consolidando a política cultural ao ampliar esse conceito e incorporar conhecimentos ancestrais que, historicamente, promovem a sustentabilidade como dimensão essencial nas estratégias de ação climática.

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Experiência da Aldeia Comboios

Durante a programação da Teia, o Projeto Memória das Águas: Vivências Tupinikim na Aldeia Comboios apresentou aos visitantes ações de preservação ambiental e do modo de vida, além de conscientização baseada nos saberes da comunidade. Cerca de 950 pessoas vivem ao longo dos 24 quilômetros da península onde a aldeia está localizada. Hudson Coutinho, vice-presidente da Associação Indígena Tupiniquim de Comboios (AITC), explicou que os trabalhos desenvolvidos no território abordam questões como lixo, reflorestamento e preservação do manguezal. "Esses já eram temas que os nossos ancestrais traziam. Eles nos ensinaram a cuidar do meio ambiente e a ter essa relação com ele, entendendo o quanto ele é importante para nos nutrir enquanto povo indígena, enquanto povo ancestral", mencionou.

A Aldeia Comboios foi uma das comunidades diretamente afetadas pelo rompimento da barragem de Mariana, em Minas Gerais, em novembro de 2015, e ainda sofre com os impactos causados pelo rejeito de mineração. O cacique Jocinaldo Coutinho relatou que os prejuízos relacionados ao desastre se refletiram na impossibilidade de pesca, cata de mariscos e até em plantações no território. "Fazer esse trabalho de conscientização, abrindo as portas da nossa aldeia, é parte do processo de reinvenção dos nossos fazeres, mas sem perder nossas tradições", disse o cacique.

Desafios para institucionalização

Segundo Mariana Resegue, diretora executiva da organização C de Cultura, já se tem clareza sobre a importância desses saberes tradicionais e das comunidades nos territórios. No entanto, ela avalia que isso ainda não se reflete em institucionalização. "Sem financiamento e sem governança, a gente corre o risco de estar apenas reproduzindo um discurso, sem garantir transformação concreta", afirmou Mariana, que também é consultora do Programa Nacional de Cultura, Meio Ambiente e Mudanças Climáticas.

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