Rio de Janeiro enfrenta risco silencioso de deslizamentos em 878 hectares, aponta levantamento inédito
Um estudo inédito da Plataforma Natureza ON, lançado pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza em parceria com o MapBiomas e apoio do Google Cloud, revela um cenário alarmante na capital fluminense. A cidade do Rio de Janeiro convive com um risco silencioso de deslizamentos que se espalha por uma área equivalente a sete vezes o Aterro do Flamengo, totalizando 878 hectares vulneráveis. Mais da metade dessas áreas, precisamente 51%, é classificada como de risco muito alto, enquanto 38% apresentam risco alto e 11% risco médio.
Diagnóstico detalhado expõe vulnerabilidade urbana agravada por mudanças climáticas
O levantamento, que cruza mapas, bases públicas e estatísticas oficiais, aponta que a combinação entre relevo acidentado, chuvas intensas do verão e cobertura vegetal insuficiente cria um cenário propício a tragédias recorrentes. Essas condições são agravadas pela ocupação desordenada do território e pelas mudanças climáticas, que intensificam eventos extremos. A plataforma identifica riscos associados não apenas a deslizamentos, mas também a inundações e insegurança hídrica, propondo caminhos de adaptação baseados na natureza.
Restauração de encostas e técnicas geotécnicas como solução prioritária
Para enfrentar o problema dos deslizamentos, a principal estratégia indicada pela Plataforma Natureza ON é a restauração de encostas, aliando vegetação nativa a técnicas geotécnicas. A bióloga Juliana Baladelli Ribeiro, gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário, enfatiza a necessidade de uma mudança de paradigma. "As obras de engenharia convencional ainda são tratadas como solução quase exclusiva, mas a adaptação das cidades às mudanças climáticas exige um novo olhar", afirma. "A vegetação, associada a intervenções técnicas seguras, ajuda a estabilizar o solo, reduzir deslizamentos e regular o escoamento das águas da chuva".
Enchentes e insegurança hídrica também preocupam na capital
Além dos deslizamentos, o estudo expõe a vulnerabilidade do Rio às inundações, alagamentos e enxurradas. Cerca de 274 hectares da cidade, equivalente a 275 campos de futebol, estão em áreas com alta probabilidade de impactos imediatos das chuvas intensas. Esse risco está diretamente ligado à impermeabilização do solo e à ocupação das margens de rios e canais. Para mitigar esses efeitos, a plataforma recomenda a implantação de lagoas pluviais e bacias de retenção, estruturas que armazenam temporariamente a água da chuva e a liberam gradualmente.
Outro ponto crítico é a segurança hídrica. Em aproximadamente 98% do território municipal, o cenário é de baixa ou mínima segurança no abastecimento de água, segundo dados da Agência Nacional de Águas (ANA). Desse total, 66% apresentam insegurança hídrica baixa e 32% segurança mínima. A restauração do entorno dos mananciais, criação de corredores ecológicos e parques lineares são medidas prioritárias sugeridas para proteger as fontes de água e ampliar benefícios urbanos.
Contexto ambiental e ferramenta prática para gestão urbana
O diagnóstico ambiental ajuda a explicar a dimensão dos riscos. Atualmente, mais de 62% do território do Rio é urbanizado, enquanto apenas 26% mantém cobertura florestal. O restante se distribui entre restingas arbóreas, campos alagados, áreas pantanosas, manguezais, rios e lagos. A baixa presença de vegetação, especialmente em áreas densamente ocupadas, aumenta a vulnerabilidade a eventos extremos.
A Plataforma Natureza ON permite consultas por município, bacia hidrográfica ou setor censitário, a menor unidade territorial utilizada pelo IBGE. A proposta é oferecer uma ferramenta prática para gestores públicos e sociedade civil, num momento em que as cidades brasileiras enfrentam o desafio de se adaptar a um clima cada vez mais instável. Ao colocar a natureza no centro da estratégia de adaptação, o levantamento reforça que a crise climática não é apenas um problema ambiental, mas uma questão urgente de planejamento urbano, justiça social e proteção da vida.