Projeto Noronha Verde enfrenta resistência de comunidade local
O Projeto Noronha Verde, iniciativa da Neoenergia que prevê investimento de R$ 350 milhões para transformar a matriz energética de Fernando de Noronha, tem sido alvo de intensos questionamentos por parte de moradores e ambientalistas. A proposta inclui a instalação de mais de 30 mil painéis solares e sistemas de armazenamento em baterias, mas enfrenta críticas sobre impactos ambientais e alternativas não consideradas.
Preocupações com vegetação e áreas agrícolas
Representantes de entidades locais e grupos ambientalistas expressaram preocupação com a necessidade de retirada de vegetação nativa para a implantação dos equipamentos solares. Além disso, há questionamentos sobre a redução de áreas destinadas ao cultivo de alimentos, o que poderia afetar a segurança alimentar da ilha.
Os moradores também cobram explicações sobre a falta de utilização dos telhados de imóveis já existentes para a instalação das placas solares. Essa alternativa, segundo os críticos, poderia minimizar os impactos ambientais e trazer benefícios diretos para a população.
Debates acalorados e posicionamentos
Durante reunião realizada pela Neoenergia na quinta-feira (7), as contrapartidas socioambientais do projeto foram apresentadas, mas não foram bem recebidas pela comunidade. O presidente da Assembleia Popular Noronhense, Nino Lehnemann, afirmou que, embora a troca da matriz energética seja positiva, não compreende por que os telhados de casas e empresas não foram incluídos no projeto.
"A Neoenergia tem uma área enorme e não usa para a matriz energética, principalmente solar. Enquanto isso, vai utilizar terrenos da ilha para os equipamentos", declarou Lehnemann, sugerindo que telhados de prédios públicos, pousadas e residências poderiam ser alternativas economicamente mais vantajosas.
Questões técnicas e ambientais
O coordenador do Projeto Golfinho Rotador, José Martins Júnior, também defendeu a instalação de placas solares nos telhados das casas, argumentando que isso poderia ajudar a reduzir a conta de energia da comunidade e representaria um avanço socioeconômico.
Ana Paula Silva, moradora do bairro da Coreia, criticou a retirada de árvores: "Não vemos um processo de reflorestamento na ilha. Será necessário abrir caminhos, e isso vai causar desmatamento".
Respostas das autoridades e empresa
A Neoenergia afirmou em nota que o Projeto Noronha Verde tem como objetivo substituir a geração de energia elétrica por fontes renováveis, reduzindo emissões de poluentes. A empresa justificou que a instalação centralizada de painéis solares é tecnicamente necessária para garantir o abastecimento de todo o arquipélago, enviando energia diretamente para a rede de alta tensão.
Segundo a empresa, sistemas individuais em telhados não teriam capacidade de atender toda a demanda energética da ilha. O projeto foi analisado e aprovado pelo Ministério de Minas e Energia, com audiências públicas realizadas durante o processo de licenciamento.
A Agência Estadual de Meio Ambiente de Pernambuco (CPRH) informou que o projeto seguiu todas as normas de licenciamento ambiental e tem autorização do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A proposta foi apresentada à população em reunião pública em maio de 2025.
Próximos passos e incertezas
O projeto prevê substituir até 100% da Usina Térmica Tubarão e reduzir em 85% o uso de energia fóssil nos períodos de maior consumo. No entanto, a Usina Tubarão seguirá como reserva para garantir o fornecimento, consumindo atualmente cerca de 13 milhões de litros de óleo combustível por ano.
A chefe do ICMBio, Lilian Hangae, destacou que houve negociações para evitar o uso de áreas contínuas e do Parque Nacional Marinho, mas ainda não há acordo firmado com os agricultores do Noronha Terra sobre contrapartidas para o uso de suas áreas.
Enquanto isso, o debate continua aquecido entre moradores que veem potencial na energia limpa, mas questionam os métodos escolhidos para sua implementação em um dos ecossistemas mais sensíveis do Brasil.
