Pesquisa da Unesp alerta para efeitos das mudanças climáticas no Cerrado brasileiro
Um estudo conduzido pelo Laboratório de Fenologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Rio Claro, São Paulo, publicado na revista Functional Ecology, revela que o período em que flores e frutos estão disponíveis no Cerrado está se tornando cada vez mais curto. A pesquisa, baseada em 15 anos de monitoramento (de 2005 a 2019), analisou 31 espécies de árvores e arbustos em uma área de reserva na Fazenda São José, em Itirapina (SP), confirmando que as alterações climáticas estão impactando diretamente o ciclo reprodutivo da vegetação nativa.
Impacto das chuvas e do calor na floração e frutificação
Os resultados indicam que a redução no tempo de floração foi mais acentuada nas espécies que dependem de polinizadores animais, fenômeno associado principalmente à diminuição das chuvas. Por outro lado, a duração da frutificação diminuiu em todas as espécies estudadas, fator relacionado ao aumento da temperatura e à redução da umidade do ar. Embora o início e o pico da floração não tenham mudado significativamente, o período termina mais cedo, especialmente nos meses de transição entre as estações seca e chuvosa, como abril e setembro.
Amanda Eburneo Martins, bióloga e autora principal da pesquisa, explica: "Durante estes meses há menos flores, ocasionando uma maior demanda para as espécies que possuem os mesmos polinizadores. Isso leva ao aumento da competição por recursos, como néctar e pólen".
Riscos para a fauna e regeneração natural do bioma
A redução na oferta de flores e frutos acende um alerta para as interações ecológicas no Cerrado. Com menos recursos disponíveis ao longo do tempo, a diversidade do bioma pode ser comprometida. Além disso, a menor duração da frutificação afeta diretamente a fauna, especialmente espécies frugívoras que dependem de frutas para alimentação.
Amanda complementa: "Com menos alimento, espécies frugívoras podem enfrentar escassez, o que aumenta o risco de queda populacional e, em situações críticas, até a morte". A regeneração natural do Cerrado também está em risco, pois as sementes dependem dos frutos para se desenvolverem. O estudo aponta que plantas com apenas um polinizador específico são as mais vulneráveis ao desaparecimento no futuro.
Resiliência vegetal e necessidade de preservação
Apesar dos impactos climáticos, os dados trouxeram uma nota de esperança: a comunidade vegetal tem demonstrado resiliência. O número de espécies capazes de florescer e produzir frutos permaneceu estável desde o início da amostragem em 2005. Cerca de 70% das espécies na área dependem de animais para reprodução, com abelhas sendo os polinizadores mais importantes, seguidas por besouros, aves, morcegos e mariposas.
A pesquisadora reforça que, embora o estudo tenha focado em Itirapina, o alerta é válido para todo o bioma Cerrado. "O Cerrado é a savana mais biodiversa do mundo. Políticas públicas devem priorizar sua proteção para que não ocorra mais a conversão em áreas de monocultura e pastagem", finaliza Amanda, destacando a urgência de ações de conservação.



