Mudanças climáticas ameaçam produção de alface no interior de São Paulo
Suas folhas são finas, sensíveis e se desenvolvem melhor em temperaturas amenas. A alface, uma das hortaliças mais consumidas pelos brasileiros, enfrenta cada vez mais dificuldades para crescer em meio ao aumento das temperaturas. Em Guapiaçu, no interior de São Paulo, o agricultor Damião dos Reis Freitas vem sentindo na produção essa mudança climática de forma direta e preocupante.
Impactos do calor na agricultura
Damião começou a plantar no início da década de 1990 e afirma que, de lá para cá, a elevação das temperaturas tem causado impactos significativos. Com os verões mais longos e intensos, ele está tendo que adaptar a rotina da lavoura para evitar prejuízos consideráveis. De acordo com um estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o aumento da temperatura provocado pelas mudanças climáticas representa uma ameaça significativa ao cultivo de alface no Brasil, principalmente nas produções a céu aberto.
O estudo mostra que, entre 2071 e 2100, ainda em um cenário considerado otimista, 97% do território nacional poderá apresentar risco climático alto ou muito alto para o plantio da hortaliça durante o verão. Segundo o engenheiro ambiental Carlos Eduardo Pacheco, da instituição, a alface é uma cultura sensível ao estresse térmico, e temperaturas elevadas comprometem tanto a qualidade quanto a produtividade.
Efeitos já sentidos no campo
No campo, os efeitos já são sentidos de maneira concreta. No verão, a chamada “queima de borda” se torna mais frequente. Com excesso de calor e umidade, as folhas crescem rapidamente, mas o transporte de cálcio na planta é prejudicado, provocando manchas escuras nas extremidades e perda de qualidade comercial. Isso afeta diretamente a viabilidade econômica da produção, levando os agricultores a buscarem soluções inovadoras.
Adaptações e estratégias dos produtores
Na busca por amenizar esse cenário, os produtores procuram alternativas para reduzir os impactos. O produtor Damião, por exemplo, passou a cobrir os canteiros com uma lona específica durante o verão para manter a umidade do solo e diminuir a intensidade direta do sol. Também aumentou a frequência das regas ao longo do dia para amenizar o estresse das plantas, uma medida que exige mais recursos e atenção.
Outro agricultor da região, Luiz Herculano Zampollo, decidiu investir em uma estrutura de sombreamento após registrar perdas de até 45% da produção nos meses mais quentes. Atualmente, ele cultiva alface em bandejas no sistema hidropônico, dentro de estufas, mas afirma que o calor intenso ainda representa um desafio e que pretende aprimorar o ambiente para garantir maior estabilidade na produção.
Essas adaptações são cruciais para a sustentabilidade da agricultura local, mas também destacam a urgência de políticas públicas e pesquisas que apoiem os produtores frente às mudanças climáticas. A situação em Guapiaçu serve como um alerta para outras regiões do país, onde a produção de alimentos pode ser igualmente afetada pelo aquecimento global.



