Lixo Atômico em Itu: Resíduo Radioativo Armazenado Há 50 Anos Gera Polêmica e Preocupação
Lixo Atômico em Itu: Resíduo Radioativo Há 50 Anos Gera Polêmica

Lixo Atômico em Itu: Resíduo Radioativo Armazenado Há 50 Anos Gera Polêmica e Preocupação

Mais de uma década antes do maior acidente radioativo do Brasil, o caso do Césio-137 em Goiás, que oficialmente causou quatro mortes, um movimento discreto de caminhões já despertava atenção em um sítio em Itu, localizado a aproximadamente 100 quilômetros de São Paulo. De maneira silenciosa, toneladas de resíduo radioativo, originado do tratamento químico do minério de monazita, foram estocadas no local sem qualquer regulamentação ou conhecimento das autoridades municipais.

Descoberta por uma Professora e Repercussão Imediata

Na época, a situação só veio à tona após despertar a suspeita de uma professora de escola rural, que notou e estranhou o produto exposto ao relento. Ela levou o assunto aos vereadores, e o tema ganhou dimensão nacional, com destaque no Jornal Nacional. Lázaro Piunti, prefeito de Itu durante o período do armazenamento, relembra que sequer foi consultado sobre a guarda do material no quintal que administrava. “O depósito do lixo atômico foi construído em sigilo na área rural de Itu, com jurisdição do Incra, escapando da ação do município. Fosse na área urbana, eu teria negado a aprovação”, afirma o ex-prefeito.

Protestos e Mobilizações da Comunidade

O local tornou-se alvo de diversos protestos e mobilizações, com manifestações que incluíam crianças, professores e movimentos sociais criados na cidade. Em uma ocasião, o espaço foi até tomado por manifestantes para uma vistoria. Piunti relata que, ao organizar uma reunião popular, enfrentou resistências, incluindo um alerta do delegado Romeu Tuma sobre os perigos. “Eu disse que a insegurança estava naquele material exposto e que a manifestação seria pacífica”, conta ele.

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O Que Está Estocado e os Riscos Envolvidos

No terreno, estão armazenadas 3,5 mil toneladas de Torta 2, um resíduo radioativo considerado de baixa radioatividade pela Indústrias Nucleares do Brasil (INB), mas que requer normas de segurança rigorosas. O material, depositado entre 1975 e 1981, fica dentro de sete silos construídos em concreto, com paredes de 20 centímetros de espessura. O físico Paulo Massoni, do IFSP, adverte: “Se algum dos compartimentos estiver danificado, pode sim vazar radiação, contaminando solo, plantas e atmosfera, com riscos de câncer e leucemia”.

Tentativas de Venda e Monitoramento Atual

Em 2013, a INB tentou vender o material para uma empresa chinesa por R$ 65 milhões, mas o negócio não se concretizou devido à falta de licenças ambientais. Em junho de 2024, um novo edital foi publicado para vender todo o material armazenado em Itu, São Paulo e Caldas (MG). O monitoramento é realizado pela INB por meio do Programa de Monitoração Radiológica Ambiental, com dosímetros instalados em 15 pontos e relatórios anuais enviados a órgãos como Cnen, Ibama e Defesa Civil de Itu.

Preocupações Ambientais e Respostas das Autoridades

Apesar das garantias da INB de que não há contaminação nos mananciais próximos, especialistas alertam para os riscos em caso de vazamento. O Ibama monitora cenários de risco associados à comercialização, focando em impactos no meio físico, biológico e aspectos socioeconômicos. O Ministério Público de São Paulo, que investigou o caso nos anos 1990, não se manifestou recentemente. O material, avaliado em R$ 14,3 milhões em 2013, permanece no local sem prazo definido para remoção, gerando uma preocupação constante que já atravessa décadas.

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