Infestação de aguapés transforma Rio Tietê em 'tapete verde' no interior de São Paulo
A proliferação massiva de aguapés tomou conta de trechos do Rio Tietê nas cidades de Barra Bonita e Igaraçu do Tietê, no interior de São Paulo, transformando a paisagem fluvial em um extenso "tapete verde". A situação alarmante mobilizou autoridades ambientais, que iniciaram investigações para identificar as causas do fenômeno e buscar soluções para o desequilíbrio ecológico.
Investigação ambiental em andamento
Nesta quarta-feira (1º), o Grupo de Fiscalização Integrada do Rio Tietê coletou amostras de água que serão analisadas pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). O objetivo é determinar os fatores responsáveis pelo crescimento excessivo das macrófitas aquáticas, popularmente conhecidas como aguapés.
Cristiano Kenji, subsecretário de Recursos Hídricos e Saneamento Básico da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), apontou que o despejo de esgoto doméstico é a principal causa do problema. "A principal causa da presença de carga orgânica e nutrientes no curso d’água é decorrente do esgoto doméstico", afirmou Kenji em entrevista à TV TEM, destacando também a influência da poluição difusa.
Múltiplos fatores contribuintes
O professor de Meio Ambiente e Recursos Hídricos Jozrael Rezende complementou que fertilizantes utilizados na agricultura regional também alimentam o crescimento acelerado das plantas. "Isso está relacionado à poluição, isso está relacionado aos fertilizantes químicos utilizados na agricultura, que servem de alimentos para esses vegetais", explicou ao g1.
Rezende alertou para as consequências ambientais: "Eles ocupam um espaço impedindo, inclusive, a fotossíntese no meio aquático. Com a presença, evapora-se muito mais água num reservatório infestado, cerca de cinco vezes mais".
Operação normal da usina hidrelétrica
Na área afetada funciona a eclusa da usina hidrelétrica de Barra Bonita, que segue operando normalmente segundo a Auren Energia, empresa responsável pela instalação. Em nota, a empresa afirmou que a presença dos aguapés está associada a fatores externos como temperatura e nutrientes, não à geração de energia.
A Auren Energia informou que adota medidas operacionais, incluindo a abertura controlada de comportas, e mantém diálogo com a comunidade para avaliar soluções conjuntas para o problema.
Força-tarefa e medidas de controle
Para conter o avanço das macrófitas, uma força-tarefa foi criada em março de 2025. Mesmo após um ano de atuação, a proliferação ainda não foi completamente controlada. Kenji reconheceu que o problema é histórico e que novas medidas vêm sendo implementadas:
- Monitoramento contínuo da situação
- Instalação de barreiras na eclusa de Barra Bonita
- Reforço no manejo das plantas com embarcações especializadas
Paralelamente, um projeto piloto desenvolvido em parceria com a Unesp de Botucatu testa métodos inovadores de controle. Érica Rodrigues Tognetti, secretária executiva do Comitê Tietê-Jacaré, detalhou: "O controle biológico visa a substituição das espécies flutuantes por espécies enraizadas, que são mais fáceis de controlar. Também há aplicação de laser para desestruturar as células das macrófitas, gerando diminuição na taxa de crescimento".
Impactos econômicos e sociais
Enquanto uma solução definitiva não é alcançada, trabalhadores que dependem do rio já sentem os efeitos negativos da infestação. As raízes dos aguapés, que podem ultrapassar um metro de comprimento, se entrelaçam e formam barreiras que dificultam significativamente a navegação.
O empresário Edgar Palmesan, que realiza passeios turísticos na região, relatou prejuízos concretos: "Às vezes não conseguimos acessar a parte de cima da barragem, o que limita o trajeto do passeio e pode causar atrasos". A pesca local também é afetada pela presença massiva das plantas aquáticas.
Características dos aguapés
Os aguapés são plantas aquáticas que se reproduzem rapidamente em condições favoráveis. Apesar de possuírem capacidade de filtragem da água, são considerados espécies invasoras que podem causar desequilíbrios ambientais quando aparecem em grande quantidade, como ocorre atualmente no Rio Tietê.
A situação exige atenção contínua das autoridades e da população, pois além dos impactos ambientais, afeta diretamente atividades econômicas e o ecossistema regional. As investigações da Cetesb devem fornecer dados importantes para o desenvolvimento de estratégias mais eficazes de controle da proliferação.



