Yanomami criam peixes em tanques com água reaproveitada para plantios na Terra Indígena
Indígenas Yanomami usam fertirrigação em projeto de segurança alimentar

Yanomami implementam sistema integrado de produção de alimentos em resposta à contaminação por mercúrio

Na comunidade indígena Sikamabiu, localizada na Terra Yanomami, um projeto inovador está transformando a realidade alimentar dos moradores. Indígenas criam peixes em tanques e reaproveitam a água utilizada na piscicultura para irrigar roças com plantio de mandioca, batata e arroz. Este sistema, conhecido como fertirrigação, integra a produção de alimentos de forma sustentável, fortalecendo a autonomia alimentar dos povos tradicionais.

Resposta direta à contaminação dos rios pelo garimpo ilegal

A iniciativa faz parte de um projeto do governo federal que une piscicultura, irrigação de roçados e criação de galinhas. Ela surge como uma alternativa urgente à pesca em rios contaminados pelo mercúrio do garimpo ilegal no Baixo Mucajaí, no Sul de Roraima. O trabalho é realizado integralmente pelos próprios indígenas, que foram capacitados para todas as etapas do processo.

A comunidade Sikamabiu reúne cerca de 400 pessoas, distribuídas em aproximadamente 30 famílias, a maioria do povo Xiriana, subgrupo dos Yanomami. Ao todo, 34 indígenas receberam treinamento para atuar desde a construção dos tanques até o manejo dos peixes e o uso da água nas plantações.

Detalhes do sistema de fertirrigação e produção

Segundo a pesquisadora da Embrapa Roraima, Rosemary Veilaça, bióloga especializada em agroecologia e inclusão, a água dos tanques passa por testes rigorosos antes de ser reutilizada nas roças. Não se trata apenas de segurança alimentar, mas de cidadania alimentar, em um sistema onde uma produção sustenta a outra e garante autonomia para o povo.

A unidade instalada em Sikamabiu conta com:

  • 10 tanques de piscicultura
  • Dois açudes com escavação de 440 m²
  • Mais de 8 mil alevinos de tambaqui, espécie amplamente consumida na Amazônia

Os tanques substituem a pesca no Rio Mucajaí, que deixou de fazer parte da rotina da comunidade após a contaminação das águas pelo mercúrio, substância altamente tóxica ao ser humano. Os peixes devem atingir o tamanho ideal até junho, garantindo proteína animal segura à comunidade nos próximos meses.

Autonomia, conhecimento e permanência no território

Os tanques foram construídos com geomembrana, uma manta sintética impermeável escolhida por ser mais leve e adequada à logística da região, onde o acesso ocorre principalmente por rios, aeronaves ou trilhas na floresta. Para manter o sistema em funcionamento, o Instituto Federal de Roraima capacitou os 34 indígenas em piscicultura.

O tuxaua da comunidade, Carlos Nailson Xirixana, afirmou que, mesmo sem garimpo direto em Sikamabiu, os impactos no rio afetaram toda a região. O garimpo não foi aqui, mas o efeito veio pelo rio. Os peixes quase morreram todos, relatou. Por isso, os tanques se tornaram uma necessidade urgente.

A liderança feminina Luísa Xirixana destacou que a formação técnica garante continuidade ao projeto. O que a gente pediu foi aprender a cuidar da terra e do peixe, para ensinar nossos filhos e netos, disse. A expectativa é que os indígenas capacitados se tornem multiplicadores do conhecimento dentro do território Yanomami.

Contexto da Terra Yanomami e emergência de saúde

Localizada no Amazonas e em Roraima, a Terra Indígena Yanomami tem quase 10 milhões de hectares. No território vivem mais de 31 mil indígenas, distribuídos em 370 comunidades. O povo Yanomami se divide em seis subgrupos linguísticos da mesma família.

O território está em emergência de saúde desde janeiro de 2023, quando o governo federal iniciou ações para atender os indígenas, como o envio de profissionais de saúde e de cestas básicas, além do reforço das forças de segurança na região para frear o garimpo ilegal. O projeto de fertirrigação representa um passo crucial na busca por soluções sustentáveis e na garantia da soberania alimentar dessas populações.