Para muitas mulheres que desejam ser mães, a chegada de um bebê representa a realização de um grande sonho. Contudo, para outras, esse momento pode ser ofuscado por dificuldades financeiras. Foi pensando em garantir acolhimento a gestantes em situação de vulnerabilidade que surgiu o projeto 'Abrace um Recém-nascido', que já atendeu mais de 150 mulheres em Campina Grande, no Agreste da Paraíba.
Origem do projeto
O 'Abrace um RN' foi criado pela artesã Joseane Cavalcanti durante a pandemia de Covid-19, em meados de 2020, após ela ganhar uma máquina de costura. A ideia inicial era confeccionar roupas para vender, mas ao ver um vídeo de uma pessoa com uma máquina similar costurando roupas para bebês, ela lembrou das dificuldades que enfrentou quando engravidou anos atrás e decidiu produzir peças para recém-nascidos e doá-las a mães em vulnerabilidade.
"O projeto é na verdade a minha dor. Eu fui a mãe do meu projeto há algum tempo atrás, sendo que não tive o acolhimento que ofereço. É por isso que o projeto existe: para que outras mães não passem pela dor que passei, e ainda caminhando sozinha", relata Joseane.
De 2020 para cá, mais de 150 mães já foram beneficiadas pela iniciativa. O projeto funciona no bairro Santa Rosa e atua principalmente na maternidade Instituto de Saúde Elpídio de Almeida (Isea), em Campina Grande, doando não apenas roupas, mas o enxoval completo para bebês cujas mães relatam não ter nada.
Como funciona
Joseane recolhe doações de itens como fraldas, pomada e lenço umedecido, além de roupinhas em bom estado de uso. Ela junta todo o material e entrega kits com enxoval completo. Quando falta algo, ela compra do próprio bolso. Frequentemente, ouve relatos de mulheres que acabam decidindo entregar seus filhos para adoção na esperança de que tenham uma vida melhor. Joseane acredita que oferecer apoio psicológico e material para essas mães também é uma forma de aumentar a chance de manter o laço materno.
"Lá (no Isea) existem várias gestantes que chegam todos os dias, vão ter seus filhos sem absolutamente nada e saem de lá quase sempre de mãos vazias, deixando para trás um bebê por falta de condições de sustentá-lo. Eu já sabia dessa realidade, que infelizmente só aumenta por conta da desestrutura familiar", explicou.
Solidariedade multiplicada
Os kits de enxoval também são entregues a mães que descobrem o projeto pelas redes sociais. É na internet que Joseane consegue dar ainda mais alcance às histórias de superação de muitas gestantes que, após receberem os kits, compartilham a alegria de receber amor através da solidariedade.
"Percebi que sozinha era impossível fazer aquilo que meu coração ardia, então decidi criar uma página na rede social e coloquei o projeto. Preciso da solidariedade de outras pessoas para chegar a esses recém-nascidos, para que elas não precisem desistir dos seus filhos", disse.
A iniciativa foi conquistando cada vez mais seguidores e, consequentemente, doações. Hoje, o projeto também é mantido por uma lojinha filantrópica onde Joseane vende as peças de roupa para conseguir arcar com custos como transporte e aluguel. As máquinas de costura também são frutos de doação, e cinco pessoas ofertam mensalmente valores simbólicos, entre R$ 5 e R$ 10, para apoiar a ação.
"A maioria dos atendimentos são feitos quando a mãe já está com a criança no colo sem saber o que fazer. Nessas situações, quando elas chegam até esse momento, grande parte não sabe da existência do projeto, mas existe sempre alguém que conhece, acaba informando sobre e perguntando se querem ajuda. Graças a Deus, até o momento, todas elas aceitaram", disse.
O acolhimento às mães acontece desde a hora que a mulher pede ajuda, antes ou depois da chegada dos bebês. Quando as gestantes contatam o projeto com antecedência, há possibilidade de acompanhamento psicológico.
"O estágio final é a entrega do enxoval em si, mas o acolhimento ocorre desde a hora que a mãe pede ajuda. Há gestantes que chegam com tempo, até o nascimento fazemos o acompanhamento e vamos conseguindo fazer a arrecadação dos itens que cada um precisa e marcamos o grande dia: o dia delas conhecerem o enxoval", explicou.
Maternidade multiplicada
Para conseguir se dedicar ao Abrace um RN, um trabalho totalmente voluntário, Joseane precisou renunciar à carreira profissional. Mãe atípica de uma criança de dois anos com autismo nível dois de suporte não verbal, ela se divide entre os cuidados com o filho e o acompanhamento às gestantes que acabam enxergando nela um suporte emocional.
"É totalmente voluntário e vivo pra isso. Renunciei à carreira profissional e a várias outras coisas para me dedicar exclusivamente ao projeto. Me divido diariamente entre os atendimentos do projeto e os cuidados com o meu pequeno autista, que precisa de terapias e atendimentos semanais e de uma rotina muito importante para o seu desenvolvimento", afirmou.
Nos dias em que o filho de Joseane está em atendimento, ela organiza tudo da melhor forma possível para conseguir dar suporte às famílias que procuram ajuda. Já nos dias em que ele está em casa, ela costuma aproveitar as manhãs para cuidar das demandas do projeto, montando os kits para poder fazer as entregas. Os atendimentos às gestantes de forma presencial são feitos no turno da tarde, quando Joseane visita as gestantes que estão na maternidade e recebe as que estão ainda grávidas na sede do projeto.
Com o propósito "de fazer com que cada vez mais bebês não sejam afastados de suas mães", Joseane segue transformando a própria dor em ajuda para milhares de mães paraibanas.
"Nosso propósito é proteger o laço materno para um novo tempo, tendo a convicção de que vai dar tudo certo. Essa é a grande motivação: quando chego no final de cada doação e consigo ver no olhar daquela mãe uma gratidão tão imensa que os olhos chegam a brilhar. É uma rotina intensa, mas feita com muito amor, dedicação e propósito", explicou.



