Sorocaba (SP) enfrenta crise na coleta seletiva com cooperativas sem remuneração direta
Crise na coleta seletiva de Sorocaba: cooperativas sem contrato

Sorocaba (SP) enfrenta contradição na gestão de resíduos com cooperativas sem remuneração

A cidade de Sorocaba, no interior de São Paulo, vive uma situação paradoxal na gestão de seus resíduos sólidos. Enquanto a prefeitura municipal firmou um contrato de R$ 157 milhões com o consórcio Novo Sorocaba Ambiental para a coleta de lixo comum, as cooperativas de reciclagem que realizam a coleta seletiva trabalham sem qualquer contrato de prestação de serviço, contando apenas com acordos de cooperação que não incluem repasse financeiro direto.

Especialista questiona modelo e aponta necessidade de valorização

O engenheiro ambiental Renan Angrizani, que analisou o cenário local, reforça a necessidade urgente de valorizar a coleta seletiva na cidade. "Os coletores das cooperativas prestam serviços essenciais para a destinação correta dos resíduos, gerando renda e reduzindo os custos para o transporte e destinação final dos resíduos sólidos de Sorocaba", afirma o especialista.

Angrizani aponta uma contradição evidente no atual modelo: "Não seria sensato pensar em destinar parte deste valor às cooperativas, que também desempenham um serviço essencial na coleta de resíduos, inclusive reduzindo parte dos resíduos direcionados ao aterro e que hoje custam tanto aos cofres públicos e munícipes?"

Cooperativas lutam por reconhecimento formal há anos

Calaire Pasqualini, presidente da Cooperativa de Reciclagem de Sorocaba (Coreso), revela que a entidade tenta há anos negociar com a prefeitura um contrato pelo serviço prestado, mas sempre encontra resistência. "Seria um sonho se tivéssemos [um contrato], mas infelizmente não temos. A Coreso possui um Acordo de Cooperação com a prefeitura, no qual ela cede cinco caminhões com motorista e combustível, dois galpões e alguns maquinários, mas ajuda financeira nós não recebemos", explica Calaire.

A situação se agrava com a queda do valor de mercado dos materiais recicláveis nos últimos anos, o que torna cada vez mais difícil a manutenção das operações das cooperativas sem apoio financeiro direto.

Prefeitura defende modelo atual de cooperação

Em resposta às críticas, a Prefeitura de Sorocaba defendeu o modelo de acordo de cooperação vigente, afirmando que ele atende aos interesses de todos os envolvidos. Segundo nota oficial, o município fornece infraestrutura completa para as cooperativas atuarem, incluindo veículos, galpões e equipamentos, mas não realiza repasse financeiro direto.

"Tal modalidade atende não apenas ao interesse das cooperativas (que recebem todo o aparato de infraestrutura para a realização dos serviços por parte do município), mas de forma precípua [fundamental] os interesses da população, que não arca, mesmo que de forma indireta, com tal prestação de serviço", declarou a administração municipal.

A prefeitura argumenta ainda que as cooperativas já são remuneradas pela venda dos materiais recolhidos, e que um contrato formal criaria uma dupla remuneração que oneraria excessivamente os cofres públicos.

Números revelam realidade preocupante da reciclagem

Os dados sobre reciclagem em Sorocaba são alarmantes:

  • A cidade produz aproximadamente 19 mil toneladas de resíduos por mês
  • Apenas 300 toneladas (equivalente a 1,6%) são destinadas à coleta seletiva
  • Menos de 2% de todo o lixo produzido na cidade é efetivamente reciclado

O engenheiro ambiental Renan Angrizani alerta sobre as consequências desse cenário: "Isso só reforça a necessidade para a destinação adequada dos resíduos. Muitas vezes, o descarte inadequado pode gerar impactos ambientais como a contaminação da água, ar e solo".

Debate público ganha força após reportagem

A discussão sobre o apoio da prefeitura às cooperativas de reciclagem ganhou força após uma reportagem do g1 sobre a crise na coleta seletiva em Sorocaba, publicada na quarta-feira (25). O tema tem mobilizado especialistas, cooperativas e a população, que questionam a eficácia do atual modelo de gestão de resíduos na cidade.

Enquanto isso, as cooperativas seguem desempenhando um trabalho essencial para a sustentabilidade urbana, mas sem o reconhecimento financeiro que muitos consideram justo e necessário para a manutenção e expansão de suas atividades.