A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), que representa algumas das maiores compradoras de soja do país, incluindo multinacionais como Bunge e Cargill, formalizou sua saída do acordo conhecido como Moratória da Soja. Este pacto setorial, em vigor há quase duas décadas, impedia a aquisição do grão proveniente de áreas desmatadas no bioma Amazônia.
O que foi a Moratória da Soja e seu impacto
Desde 2008, as empresas signatárias haviam se comprometido voluntariamente a não comprar soja cultivada em terras desmatadas na Amazônia após julho daquele ano. É importante destacar que o acordo ia além da legislação vigente: mesmo que um desmatamento fosse considerado legal pelo Código Florestal – que permite a supressão de até 20% da vegetação nativa em propriedades privadas na região –, a moratória vedava a comercialização da soja produzida nessas áreas.
Os resultados desse compromisso foram expressivos. Dados da própria Abiove indicam que, desde a implementação do acordo, apenas 2,1% do desmatamento registrado nos municípios monitorados resultou em plantio de soja. Estima-se que mais de 13 mil quilômetros quadrados de floresta tenham sido preservados graças à moratória.
Um retrocesso voluntário e seus riscos
Para a WWF-Brasil, a decisão representa um retrocesso grave e injustificável. A organização ambiental ressalta que o acordo não foi extinto por uma mudança na lei, mas foi conscientemente esvaziado pela saída voluntária das empresas, que tinham plena condição jurídica de permanecer no pacto.
A WWF alerta que a medida enfraquece um dos instrumentos mais eficazes no combate ao desmatamento no Brasil e coloca o próprio agronegócio em risco. A integridade das florestas amazônicas é fundamental para a estabilidade climática e para a manutenção dos regimes de chuva que sustentam a produção agrícola em todo o país.
Produção cresceu com a floresta em pé
Um dos argumentos mais contundentes em defesa da moratória é que ela provou ser possível conciliar preservação ambiental com expansão agrícola. Entre 2009 e 2022, enquanto o desmatamento nos municípios monitorados caía 69%, a área plantada com soja no bioma Amazônia crescia impressionantes 344%.
Esses números demonstram que o acordo não limitou a produção, mas direcionou sua expansão para áreas já abertas, promovendo um crescimento sustentável e responsável. A moratória era considerada um exemplo bem-sucedido de governança multissetorial, alinhando interesses econômicos e ambientais.
Agora, com o abandono do acordo pelas principais compradoras, especialistas temem um novo ciclo de pressão sobre a floresta, com consequências não apenas para a biodiversidade, mas também para a imagem do agronegócio brasileiro no mercado internacional, cada vez mais exigente em relação a critérios socioambientais.