Relatório da ONU confirma: década mais quente da história afeta clima global
A humanidade enfrentou os últimos dez anos mais quentes já registrados na história, conforme aponta um relatório abrangente da Organização Meteorológica Mundial (OMM), divulgado pelas Nações Unidas nesta segunda-feira (23). Este calor sem precedentes está desestabilizando completamente o equilíbrio que mantinha o clima estável, criando um cenário de transformações profundas no sistema climático global.
Desequilíbrio energético atinge nível histórico
O dado que mais preocupa os cientistas vai além das temperaturas recordes. Pela primeira vez, o relatório coloca no centro da análise o chamado desequilíbrio energético da Terra — a diferença crítica entre a energia que entra no sistema climático, proveniente do Sol, e a que é devolvida ao espaço. Este desequilíbrio atingiu, em 2025, o maior nível desde o início das medições sistemáticas em 1960.
Na prática, isso significa que o planeta está retendo quantidades crescentes de calor, funcionando como um acumulador energético sem precedentes. Este excesso de energia atua como combustível para eventos climáticos extremos, intensificando fenômenos naturais e explicando por que tempestades, secas e ondas de calor têm se tornado mais frequentes e mais devastadoras em todo o mundo.
Brasil sente impactos diretos das mudanças
No Brasil, esse mecanismo esteve diretamente por trás de episódios climáticos extremos recentes, incluindo as chuvas históricas que assolaram o Rio Grande do Sul em 2024 e as secas intensas que afetaram diversas regiões do país. Com mais energia disponível na atmosfera e nos oceanos, sistemas de chuva ganham força extraordinária, duram mais tempo e provocam volumes pluviométricos muito acima do esperado.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, foi enfático ao comentar os resultados: "A humanidade acaba de passar pelos onze anos mais quentes já registrados. Quando a história se repete onze vezes, não é mais uma coincidência. É um chamado urgente à ação climática imediata e decisiva".
Oceanos absorvem a maior parte do calor
A maior parte desse calor extra não permanece na atmosfera. Cerca de 91% é absorvida pelos oceanos, que vêm acumulando energia em ritmo acelerado e alarmante. Nas últimas duas décadas, os mares passaram a reter, anualmente, o equivalente a aproximadamente 18 vezes todo o consumo anual de energia da humanidade.
Simultaneamente, os oceanos também absorvem dióxido de carbono da atmosfera, o que contribui para mudanças químicas profundas na água do mar e agrava impactos ambientais em cadeia. O relatório demonstra que o calor armazenado nos mares atingiu níveis recordes históricos e que a taxa de aquecimento oceânico mais do que dobrou em comparação ao período entre 1960 e 2005.
Regiões polares sofrem transformações drásticas
Os sinais dessa energia acumulada aparecem de forma dramática nas regiões polares. A extensão do gelo marinho no Ártico segue em níveis historicamente baixos, enquanto na Antártida, a cobertura de gelo registrou a terceira menor extensão já documentada pelos cientistas.
Mesmo em um cenário de transição para La Niña — fenômeno que costuma ter efeito temporário de resfriamento —, o aquecimento global se manteve elevado em 2025, demonstrando a força das tendências climáticas de longo prazo sobre os ciclos naturais de variação.
Novo normal climático cada vez mais quente
A sequência contínua de anos com excesso de calor indica que o planeta pode estar enfrentando um novo normal climático — cada vez mais quente e instável. Em 2025, a temperatura média global ficou cerca de 1,43 °C acima dos níveis pré-industriais, colocando o ano entre o segundo e o terceiro mais quente da série histórica.
Este número representa apenas uma leve redução em relação ao recorde estabelecido em 2024, quando a Terra ultrapassou temporariamente a marca crítica de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais — limite considerado seguro pelos acordos climáticos internacionais.
O período completo de 2015 a 2025 consolidou-se como o mais quente já registrado na história da humanidade, reunindo de forma concentrada os dez anos com temperaturas mais elevadas desde o início das medições sistemáticas. Este cenário exige respostas coordenadas e urgentes da comunidade internacional para mitigar os impactos já em curso e preparar sociedades para os desafios climáticos das próximas décadas.



