Túneis pré-históricos de 10 mil anos são descobertos durante obra no Sul catarinense
Uma descoberta arqueológica extraordinária transformou uma simples obra de alargamento de estrada em Lauro Müller, no Sul de Santa Catarina, em um sítio científico de importância internacional. A moradora Simone Cattaneo Betti foi a primeira a notar a estrutura subterrânea incomum, que inicialmente alimentou antigas lendas regionais sobre tesouros escondidos.
Da lenda à ciência: a revelação das paleotocas
Influenciada por histórias transmitidas por gerações, Simone acreditou que poderia estar diante de um túnel que levava a riquezas enterradas por antigos moradores durante uma epidemia histórica. "Quando a gente viu, pensou: agora é só seguir o caminho que o tesouro está ali", relatou a moradora, destacando como a proximidade com um antigo cemitério reforçava suas suspeitas.
Porém, com a chegada de especialistas, a explicação mitológica deu lugar a uma comprovação científica fascinante. Os pesquisadores identificaram as estruturas como paleotocas - túneis escavados por animais gigantes que habitaram a região durante o Período Pleistoceno, há mais de 10 mil anos.
Megafauna pré-histórica: os verdadeiros construtores
O geólogo Gustavo Simão explicou detalhadamente como essas estruturas serviam como abrigo para a megafauna extinta e conseguiram se preservar através dos milênios. A confirmação científica baseou-se em três evidências principais:
- O tipo específico de relevo da região
- Características do solo arenítico
- Formato característico dos túneis
"O surgimento dessa estrutura mostra que esses animais também habitavam, escavavam, materiais diferentes daquelas paleotocas já conhecidas", afirmou Simão, destacando a importância da descoberta para reconstruir os hábitos e distribuição geográfica dessas espécies desaparecidas.
Tatus gigantes e preguiças colossais: os engenheiros pré-históricos
Estudos aprofundados revelaram que as paleotocas foram escavadas principalmente por espécies gigantes de tatus e preguiças terrestres. Segundo o doutorando em geografia Arthur Filipe Bechtel, algumas dessas criaturas atingiam dimensões impressionantes:
- Tatus gigantes podiam chegar a 500 quilos
- Preguiças terrestres alcançavam até seis toneladas
Atualmente, aproximadamente 30 paleotocas já foram registradas na região do Geoparque Caminhos dos Cânions do Sul, abrangendo municípios como Morro Grande, Jacinto Machado e Timbé do Sul.
Marcas indeléveis e ocupação humana posterior
Esses animais pré-históricos deixaram evidências concretas de sua passagem: arranhões de garras nas paredes dos túneis que funcionam como assinaturas paleontológicas, permitindo identificar a origem das estruturas mesmo na ausência de fósseis.
Gislael Floriano, diretor executivo do geoparque, ressaltou a importância histórica e científica da descoberta, observando que "estruturas importantes que num determinado período da história, algumas delas, em especial lá no nosso território, também tiveram ocupação humana". Esta revelação sugere que povos indígenas posteriormente reutilizaram esses túneis como abrigo.
Proteção legal e novas perspectivas de pesquisa
A área onde o túnel foi descoberto agora está devidamente isolada e protegida por legislação federal, enquanto novos estudos prometem aprofundar o conhecimento sobre essas estruturas únicas. A descoberta não apenas amplia o entendimento sobre a megafauna sul-americana, mas também destaca o rico patrimônio paleontológico da região sul catarinense.
Enquanto a ciência avança, Simone mantém um pé na imaginação: "Pode ter sido feito pelos tatus gigantes, sim… mas depois outras pessoas podem ter usado. Vai saber, né? A esperança continua", finalizou com bom humor, demonstrando como o fascínio pelo mistério convive harmoniosamente com a descoberta científica.



