Da rejeição acadêmica à vanguarda da física teórica
A trajetória de Sabrina González Pasterski na física começou com obstáculos significativos que foram superados com determinação excepcional. Sua primeira candidatura à Universidade de Harvard foi rejeitada, e ela ficou inicialmente na lista de espera do MIT, duas das instituições mais prestigiadas do mundo. Contudo, anos depois, ela não apenas ingressou nessas universidades como se destacou brilhantemente em ambas, demonstrando que reveses iniciais não definem o potencial futuro.
Origens cubanas e identidade latina
Nascida em Chicago em 1993, Pasterski sempre manteve forte conexão com suas raízes latinas. Em comunicação com a BBC Mundo em 2020, ela enfatizou: "O que seria de mim sem minha mãe e o que seria dela sem sua história familiar? É difícil separar a identidade de alguém da própria realidade". Sua mãe, Maria, nasceu em Cuba e emigrou para os Estados Unidos ainda criança com sua família, carregando consigo uma história de resiliência que parece ter influenciado a determinação da cientista.
Primeiras conquistas: construindo um avião aos 14 anos
O talento prático de Pasterski manifestou-se cedo. Entre os 12 e 14 anos, ela construiu seu próprio avião na garagem de casa, movida pela curiosidade de entender "como as coisas vão se juntando, como peças muito pequenas se juntam para formar algo maior". Aos 16 anos, pilotou a aeronave que havia construído, conquistando atenção da mídia americana e dando os primeiros sinais públicas de seu engenho extraordinário.
Três desejos para mulheres na tecnologia
Durante o Perspektywy Women in Tech Summit em 2019, Pasterski compartilhou três desejos fundamentais para mulheres que atuam em áreas tecnológicas e científicas:
- Não sucumbir àqueles que querem nos fazer duvidar de nós mesmas
- Resistir à pressão daqueles que querem planejar nosso futuro por nós
- Não ter medo de tirar um tempo de folga para descobrir o que realmente motiva
Seis anos depois, ela mantém essas convicções, enfatizando a importância de cada pessoa descobrir seu próprio caminho, mesmo que isso signifique mudar de direção profissional.
Da aeronáutica à física quântica
Embora sua paixão inicial fosse a aeronáutica, Pasterski percebeu que seu verdadeiro chamado estava na física teórica. Essa transição demonstra sua capacidade de seguir suas verdadeiras motivações, conselho que ela mesma dá a outras pesquisadoras. Atualmente, ela atua no prestigiado Instituto Perimeter de Física Teórica no Canadá, onde lidera a Iniciativa de Holografia Celestial.
Holografia celestial: descrevendo o Universo como holograma
O trabalho de Pasterski foca em uma questão fundamental: seria possível uma teoria bidimensional descrever nosso Universo tridimensional? Como ela explica em vídeo do Instituto Perimeter: "Por celestial, nos referimos literalmente a olhar para o céu noturno: como o Universo físico é codificado como um holograma?"
Francisco Rojas, professor da Universidade Adolfo Ibáñez no Chile, destaca a importância de suas contribuições: "Sabrina é uma das pesquisadoras que realizou trabalhos que, na ciência, chamamos de seminais — publicações que serviram como ponto de partida para uma nova área da Física Teórica".
Trabalhos citados por Stephen Hawking
Após graduar-se no MIT como a melhor aluna do programa de Física com média perfeita de 5, Pasterski fez doutorado em Harvard sob supervisão de Andrew Strominger, pioneiro da holografia celestial. Durante esse período, ela ajudou a descobrir o chamado spin memory effect e contribuiu para completar o triângulo infravermelho — pesquisa que foi citada por Stephen Hawking.
"Ao citá-lo, Hawking o destaca como um trabalho muito importante para o futuro da física", afirma Rojas. "É uma descoberta bastante relevante porque, hoje em dia, não é comum que um artigo científico em física preveja algo que possa ser medido experimentalmente em um prazo relativamente curto."
Rejeitando o rótulo de "nova Einstein"
Apesar de veículos de comunicação a chamarem de "a nova Einstein", Pasterski considera esse rótulo inadequado. "Primeiro porque isso foi dito quando Hawking citou o trabalho que eu participei com o Andrew (Strominger). Eu estava apenas no segundo ano do meu doutorado", explica.
Ela acrescenta: "O que mais me incomodava era pensar que, se eu realmente fosse uma grande cientista, minha vida seria diferente... A outra questão é que esse tipo de rótulo não ajuda em nada se você está em uma área com milhares de pessoas. Não é justo."
Pasterski acredita que a história do avião provavelmente fez com que ela chamasse mais atenção "do que outras pessoas que também eram brilhantes", mas busca transformar essa visibilidade em algo positivo para o campo da física como um todo.
Unindo academia e indústria
Para Pasterski, o ponto central é como usar a visibilidade e o reconhecimento para beneficiar a física e criar pontes com outras áreas, como tecnologia e Inteligência Artificial. "Eu adoro a ideia de transformar esse tipo de atenção em algo positivo — de promover uma colaboração entre a academia e a indústria que nos ajude a resolver problemas e a fazer pesquisa de maneira mais eficiente, inovadora e interessante."
Preenchendo lacunas na compreensão do Universo
Pasterski e sua equipe no Instituto Perimeter dedicam-se a um dos maiores desafios da física: unir a teoria da relatividade geral e a mecânica quântica. Como ela explica, quando você estuda um problema específico na física, está se apoiando "nos ombros de gigantes" que ficaram presos em determinado ponto — e é justamente ali que se encontra uma lacuna importante a ser preenchida.
"Existem exemplos específicos em que foram feitas tentativas de se estudar uma teoria da gravidade quântica procurando uma descrição que fosse equivalente, mas sem gravidade — e é nisso que eu trabalho", afirma.
Buscando leis fundamentais do Universo
Com seu grupo de pesquisadores, Pasterski procura criar um marco teórico geral que seja "mais realista" do ponto de vista da física. "É como se a própria física nos dissesse que existem descrições mais simples que podem nos levar a compreender muito mais coisas."
"O objetivo é tentar encontrar um conjunto de leis altamente condensadas que depois expliquem todos esses outros fenômenos que estamos observando. Acho que essa é a missão que temos como grupo."
O Universo como holograma
Quando questionada se o Universo é um holograma, Pasterski responde: "Acredito que podemos descrevê-lo como um holograma, sim. E então surge a pergunta: é essa uma descrição útil?"
Ela acrescenta: "Eu gostaria que as pessoas soubessem que a descrição do Universo pode ser mais simples do que todas as coisas que surgem a partir dele — e que estamos tentando encontrá-la. No fundo, acho que acreditamos que existe, em algum lugar, um conjunto de regras fundamentais das quais tudo emerge. Seria incrível entender quais são. Isso é fascinante."
Legado em construção
Da construção de um avião na adolescência à liderança de pesquisas de ponta em física teórica, a trajetória de Sabrina Pasterski exemplifica como paixão, resiliência e curiosidade podem superar obstáculos iniciais. Sua história inspira não apenas pela excelência científica, mas também pela forma como lida com reconhecimento e expectativas, sempre focando no avanço coletivo do conhecimento.
Como ela mesma reflete sobre o legado de Einstein: "O legado de Einstein é algo que todo o nosso campo está tentando dar continuidade... há muitas estrelas, e nem todas escrevem livros ou tentam chamar atenção." Para Pasterski, o verdadeiro brilho está na busca coletiva por compreender as leis fundamentais que governam nosso Universo.



