Paleopatologia: como cientistas descobrem doenças em fósseis de dinossauros e trilobitas
Paleopatologia: doenças em fósseis de dinossauros e trilobitas

Os paleontólogos frequentemente encontram tecidos ou estruturas incomuns em restos fósseis, levando-os a suspeitar que os animais estavam doentes. A paleopatologia é a disciplina científica que analisa essas alterações e permite saber quais doenças afetavam os organismos que habitaram a Terra em épocas passadas.

Como funciona a paleopatologia?

A comparação entre o presente e o passado é fundamental para compreender as doenças que afetaram os seres pré-históricos. Para chegar a um diagnóstico, a paleopatologia se baseia em uma premissa fundamental: as doenças se desenvolvem de forma comparável em espécies atuais e extintas.

Avanços tecnológicos permitiram um importante salto qualitativo nesta disciplina. Assim como na medicina, os fósseis com anomalias são digitalizados em alta resolução, utilizando o que conhecemos como tomografia computadorizada. Com os resultados, é possível observar estruturas e tecidos internos e aprofundar o diagnóstico da doença sem danificar o restante do fóssil.

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À caça dos trilobitas!

Os trilobitas, com mais de 22.000 espécies descritas, são um símbolo do Paleozoico (539-251 milhões de anos). Esses artrópodes extintos, dotados de uma carapaça dura, habitavam ambientes marinhos em praticamente todo o mundo. Além disso, foram alguns dos primeiros organismos a sofrer predação na própria pele.

Em alguns restos de trilobitas foi possível observar partes truncadas ou lascadas. Cientificamente, essas lesões foram interpretadas como possíveis mordidas de predadores. Em alguns casos, as bordas dessas mordidas mostram sinais de remodelação, sugerindo que foram ataques predatórios malsucedidos. Naquela ocasião, o trilobita se salvou. Mas quem comia esses animais?

Acredita-se que o mais provável seja que seus predadores fossem outros invertebrados durofágicos, como cefalópodes (como polvos), asteroides (como estrelas do mar), artrópodes (como caranguejos) etc. Alguns possuíam cones orais e outros estavam dotados de espinhos nas patas, semelhantes aos dos atuais caranguejos-ferradura. Havia também aqueles que apresentavam apêndices frontais que funcionariam como martelos.

Historicamente, pensava-se que os principais predadores eram os anomalocarídeos. Hoje, no entanto, existem dúvidas a esse respeito. Sugere-se que eles os predavam apenas logo após o processo de muda, quando a carapaça dos trilobitas ainda não estava endurecida.

Além de lesões relacionadas à predação, foram identificadas nos trilobitas anomalias associadas a outros processos. Por exemplo, alterações no desenvolvimento, complicações durante a muda ou doenças causadas por parasitas.

Mancos no Jurássico

Já foram identificadas inúmeras alterações patológicas nos restos ósseos e dentários de dinossauros mesozoicos. Algumas são interpretadas como traumatismos (fraturas, amputações, etc.), outras como infecções, e também foram documentadas doenças degenerativas ou alterações no desenvolvimento.

Mas os dinossauros não nos deixaram apenas restos esqueléticos. Eles também deixaram evidências de sua atividade. Pegadas ou rastros (conhecidos como icnitas) podem fornecer informações sobre sua locomoção, como, por exemplo, a velocidade com que se deslocavam, ou sobre seu comportamento, se se moviam em manada ou sozinhos.

Além disso, algumas icnitas sugerem que certos dinossauros apresentavam problemas ao caminhar. Nesses rastros, observa-se uma assimetria no comprimento dos passos. Ou seja, eles alternavam passadas longas com outras mais curtas. Uma hipótese sugere que esse padrão poderia indicar uma marcha irregular, possivelmente para evitar sobrecarregar um dos membros. A origem, entre outras causas, poderia ser uma lesão ou uma artrite.

Embora não sejam tão comuns quanto as patologias nos ossos e dentes, foram identificadas marchas irregulares em diferentes tipos de dinossauros. Por outro lado, estudos das pegadas também puderam observar malformações nos dedos e nas palmas. Foram identificadas icnitas de dinossauros com dedos ausentes, fraturados ou deformados, bem como extremidades curvadas ou irregulares. Também alguns com excrescências anômalas e até mesmo pegadas completamente torcidas. Essas formas aberrantes provavelmente refletem lesões no animal (fraturas, infecções, etc.) ou alterações durante seu desenvolvimento.

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Evidências que o tempo apagou

Nem todas as doenças que afetaram os organismos do passado podem ser detectadas no registro fóssil. A escassa preservação dos tecidos moles gera um viés significativo, já que a maioria das lesões e doenças não deixa vestígios nas estruturas duras nem nos resíduos de sua atividade.

Além disso, as respostas do tecido ósseo costumam ser lentas e, em alguns casos, podem levar anos ou até décadas para se desenvolver. Por isso, muitas doenças, especialmente as de caráter letal, não deixam nenhum vestígio nos fósseis e permanecem fora do nosso conhecimento no tempo profundo.

Outro problema é o mimetismo tafonômico. Durante o enterramento e outros processos tafonômicos, podem ocorrer alterações semelhantes a lesões patológicas, como abrasões ou fraturas. Por isso, a equipe de pesquisa responsável pelo estudo deve ser cautelosa e prestar atenção especial aos detalhes para evitar identificar doenças onde elas não existem.

A paleopatologia nos ensina que a doença existe desde o início da própria vida. Embora raramente deixe marcas no registro fóssil, quando o faz nos permite vislumbrar as histórias dos organismos de uma maneira completamente incomum: não apenas como viviam, mas também como adoeciam, resistiam ou não conseguiam sobreviver. Mesmo no passado mais remoto, a vida nunca esteve isenta de suas próprias fragilidades.