Laboratório NB-3: o que é, como funciona e sua importância para a ciência brasileira
Laboratório NB-3: função e importância para a ciência no Brasil

Laboratório NB-3: o que é e qual seu papel para a ciência?

Acesso controlado, normas rígidas para transporte de micro-organismos de alto risco e protocolos de descontaminação. Para ser classificada com nível de biossegurança 3 (NB-3), uma estrutura como o Laboratório de Virologia da Unicamp, que teve amostras de vírus furtadas, precisa atender a uma série de exigências. Ao todo, existem quatro níveis de biossegurança, do NB-1 ao NB-4. O Brasil, no entanto, opera apenas até o nível 3.

Distribuição dos laboratórios NB-3 no Brasil

No Brasil, há laboratórios NB-3 distribuídos em diferentes regiões, como em Campinas, incluindo unidades da Unicamp; na Universidade de São Paulo (USP); no Rio de Janeiro, na Fiocruz; e em Belém (PA), no Instituto Evandro Chagas (IEC). O NB-4, considerado o mais alto grau de contenção, está em construção no país, em Campinas, no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM).

Possuir um laboratório de biossegurança máxima (NB-4) oferece condições ao país de monitorar, isolar e pesquisar os agentes biológicos para desenvolver métodos de diagnóstico, vacinas e tratamentos. No mundo, estruturas como essa são as responsáveis por análises e estudos de vírus como o Ebola, por exemplo, que são mais perigosos que o SARS-CoV-2, causador da Covid-19.

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Níveis de biossegurança explicados

Nível de biossegurança 1 (NB-1): é o nível básico de contenção voltado para o trabalho com microrganismos conhecidos por não causarem doenças em adultos saudáveis, apresentando risco mínimo. O trabalho é feito em bancadas abertas usando práticas padrão de microbiologia, e a única barreira secundária exigida é uma pia para lavagem das mãos.

Nível de biossegurança 2 (NB-2): aplicável a laboratórios que lidam com um espectro de agentes de risco moderado associados a doenças humanas de gravidade variável. Exige, além das práticas de NB-1, treinamento específico, acesso limitado, precauções extremas com objetos cortantes e o uso de Cabines de Segurança Biológica (CSB) para procedimentos que gerem aerossóis ou borrifos.

Nível de biossegurança 3 (NB-3): destinado ao trabalho com agentes nativos ou exóticos que possuem potencial de transmissão por via respiratória (aerossóis) e podem causar infecções sérias ou fatais. Enfatiza barreiras primárias e secundárias, exigindo que todas as manipulações ocorram em cabines de segurança e que o laboratório possua fluxo de ar negativo unidirecional, sem recirculação para outras áreas.

Nível de biossegurança 4 (NB-4): representa o nível máximo de contenção para agentes exóticos perigosos que oferecem alto risco de doenças fatais, transmissão por aerossóis e para os quais não existem vacinas ou tratamentos. Requer o isolamento completo do pessoal por meio de cabines de segurança classe III ou macacões de pressão positiva, em instalações isoladas com sistemas de ventilação e gerenciamento de resíduos altamente especializados.

Como funciona o NB-3

O que é: É uma instalação de contenção projetada para o manejo seguro de micro-organismos. O objetivo é garantir a proteção do pesquisador e do meio ambiente contra agentes que possuam alto risco de agravo à saúde, mas baixo ou moderado risco de disseminação.

Exemplo de agentes da classe de risco 3: Bacillus anthracis, bactéria causadora da doença infecciosa conhecida como antraz, e vírus da imunodeficiência humana (HIV) – a depender da carga viral.

Para que serve: O laboratório é uma barreira de segurança para pesquisas, ensino, desenvolvimento tecnológico e produção em pequena ou grande escala envolvendo micro-organismos. É necessário para a criação de vacinas e medicamentos.

"Para você fazer qualquer estudo, seja de vacina ou medicamento, você precisa ser capaz de propagar esse vírus de forma contida. Isso é feito com segurança no NB-3", explica Luis Lamberti, coordenador do Centro de Pesquisa em Virologia da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto (FMRP).

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O professor da FMRP destaca que micro-organismos estudados em estruturas com NB-3 são aqueles que oferecem risco biológico, que podem causar algum tipo de doença, e para os quais ainda não existe uma vacina, ou que não são tão comuns naquele ambiente.

"O vírus da dengue, por exemplo, a gente não usa o NB-3, porque ele já está em nosso ambiente. Mas o coronavírus, quando surgiu, não tinha vacina, causava uma doença grave, por muito tempo foi um vírus de classe 3. Essas classificações são dinâmicas", diz Lamberti.

Exigências técnicas para um laboratório NB-3

Segundo a Resolução Normativa nº 18, do CTNBio, as principais exigências para um laboratório NB-3 são:

  • Infraestrutura e contenção física: As instalações do NB-3 devem ter separação física de outras áreas de trânsito livre ou corredores. A entrada para o laboratório deve ser feita por meio de um sistema de dupla porta, incluindo uma antessala para troca de roupas e dispositivos de acesso em duas etapas. Paredes, tetos e pisos devem ser resistentes à água, selados e lisos para facilitar a limpeza.
  • Sistema de ventilação e ar: Pressão negativa do ar é um sistema de ventilação em que o ar sempre flui para dentro do ambiente, impedindo que os contaminantes escapem para áreas externas. Todo o ar que sai do laboratório deve passar por filtros capazes de capturar vírus, bactérias, fungos, poeira fina e aerossóis antes de ser eliminado para o exterior ou recirculado.
  • Gestão de resíduos e descontaminação: É obrigatória a presença de uma autoclave de dupla porta no interior das instalações para a descontaminação de resíduos. Todos os líquidos gerados na estrutura devem passar por tratamento em caixas de contenção antes de serem liberados no sistema sanitário.
  • Procedimentos e equipe: Obrigatório o uso de uniforme completo específico, que deve ser descontaminado antes de ir para a lavanderia ou descarte. A equipe que utiliza o NB-3 deve ter treinamento específico em agentes de Classe 3 e supervisão constante. Exames médicos anuais são obrigatórios.

Regras para transporte de agentes biológicos

A resolução normativa nº 26, também da CTNBio, define as diretrizes obrigatórias para o transporte desses agentes. No caso de materiais de classes 2 e 3, as regras envolvem autorização expressa e embalagens específicas. A retirada das amostras sem autorização do laboratório da Unicamp, entre elas dos vírus H1N1 e H3N2, causadores da gripe tipo A, além de outros vírus humanos e suínos, representa um claro descumprimento dessas regras.

Para o transporte de micro-organismos dessas classes, a CTNBio precisa emitir uma autorização prévia, com informações sobre destino, quantidade e condições da embalagem, além da anuência expressa da instituição de destino.

  • Dupla embalagem obrigatória: segundo a norma, devem ser utilizados, no mínimo, dois recipientes, um interno e um externo, que ofereçam resistência durante o transporte.
  • Símbolos obrigatórios: a embalagem deve conter o símbolo universal de "risco biológico" e, se pertinente, o de "frágil".
  • Mensagem de alerta: O conteúdo deve apresentar, obrigatoriamente, a frase: "O acesso a este conteúdo é restrito à equipe técnica devidamente capacitada".
  • Informações de contato: O recipiente externo deve exibir nome, endereço e telefone de quem envia e de quem vai receber.

Investigação e prisão de pesquisadora na Unicamp

A investigação começou quando uma pesquisadora autorizada do Laboratório de Virologia do Instituto de Biologia notou, na manhã de 13 de fevereiro de 2026, o desaparecimento de caixas com amostras virais. No dia 23 de março, a PF cumpriu mandados em laboratórios da Faculdade de Engenharia de Alimentos. Todos os laboratórios da faculdade ficaram temporariamente interditados durante a ação.

A Polícia Federal localizou as amostras espalhadas em três locais diferentes: Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), Laboratório de Doenças Tropicais (Instituto de Biologia) e Laboratório de Cultura de Células (Instituto de Biologia). A professora doutora Soledad Palameta Miller foi presa em flagrante nesta segunda-feira (23), depois que a Polícia Federal encontrou as amostras virais em laboratórios da universidade aos quais a professora conseguiu acesso com o consentimento de outros pesquisadores.

A defesa da docente afirma que não há materialidade na acusação e que ela utilizava os laboratórios do Instituto de Biologia por não possuir estrutura própria. A Polícia Federal (PF) informou nesta quarta-feira (25) que o marido da professora, Michael Edward Miller, também é investigado por suspeita de envolvimento no furto de amostras de vírus de um laboratório do Instituto de Biologia da Unicamp.

Importância do investimento em laboratórios NB-3

O especialista ressalta que a construção de um laboratório NB-3 representa um investimento caro, desde a estrutura física, que conta, entre outras coisas, com sistemas de ar que precisam ser trocados com regularidade, equipamentos importados, treinamento de equipes e materias de segurança.

Mas um equipamento desse porte é essencial para a ciência e resposta diante de emergência sanitárias, como foi o caso da Covid-19. "Não tem como a gente fazer uma vacina pra um vírus se você não tem um estoque desse vírus. Na pandemia, quando o pessoal conseguiu isolar o coronavírus e replicar ele, a gente conseguiu o vírus para testar, entender como ele agia", disse.

Segundo Lamberti, manter vírus e outros micro-organismos armazenados em estruturas seguras é necessário para o enfrentamento de doenças, inclusive de algumas erradicadas. "O vírus da varíola está erradicado, a gente não tem mais ele circulando. Mas há um local que esse vírus está estocado, porque se um dia ele voltar a circular, a gente consegue produzir uma vacina. Por isso a gente tem que ter os nossos bancos, precisamos ter isso aqui", enfatiza.