Fósseis de 770 mil anos no Marrocos podem ser raiz da linhagem humana
Fósseis de 770 mil anos podem ser raiz da linhagem humana

Uma descoberta arqueológica de grande impacto pode reescrever capítulos da nossa história evolutiva. Fósseis com cerca de 770 mil anos, encontrados em uma caverna no Marrocos, emergem como fortes candidatos a representar a linhagem ancestral comum que deu origem tanto aos humanos modernos (Homo sapiens) quanto aos nossos "primos" extintos da Eurásia: os neandertais e os misteriosos denisovanos.

A Gruta dos Hominídeos e seus tesouros ancestrais

Os achados vêm das proximidades de Casablanca, de uma caverna conhecida como "Grotte à Hominidés" (Gruta dos Hominídeos). O local é escavado desde os anos 1960, mas o estudo publicado na revista Nature consolida dados coletados de forma sistemática a partir dos anos 1990. A equipe internacional de peso é liderada por Jean-Jacques Hublin, do Collège de France e do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionista, e por Abderrahim Mohib, do Instituto Nacional de Ciências da Arqueologia e do Patrimônio do Marrocos.

Entre os fósseis recuperados estão três mandíbulas, dentes isolados, vértebras e até um fragmento de fêmur que apresenta marcas de mordida de um grande carnívoro, provavelmente uma hiena. A datação, considerada precisa pela equipe, foi realizada com base em mudanças no campo magnético da Terra, situando os ossos no início do Pleistoceno Médio.

Uma data crucial na bifurcação evolutiva

A idade de aproximadamente 770 mil anos é extremamente significativa. Ela se aproxima das estimativas genéticas para o momento em que as linhagens que originaram os humanos modernos, de um lado, e os neandertais e denisovanos, de outro, começaram a se separar. "Os fósseis da 'Grotte à Hominidés' podem ser os melhores candidatos que temos na busca por populações africanas que estão perto da raiz dessa ancestralidade compartilhada", afirmou Hublin.

A anatomia desses humanos primitivos é um mosaico intrigante: combina traços arcaicos com características que só apareceriam mais tarde no H. sapiens, nos neandertais e nos denisovanos. Isso os coloca em uma posição potencialmente basal, próxima ao ponto de divergência.

Comparações e o quebra-cabeça do Homo antecessor

A descoberta dialoga diretamente com outro fóssil crucial encontrado na Espanha: o Homo antecessor, datado entre 950 mil e 770 mil anos. A proximidade geográfica, separada apenas pelo Estreito de Gibraltar, e a sobreposição das idades levantam questões fascinantes sobre as conexões populacionais entre o norte da África e o sul da Europa na pré-história.

No entanto, a análise comparativa indica uma diferença crucial. Enquanto o H. antecessor espanhol parece estar mais próximo da linhagem que levou a neandertais e denisovanos, os fósseis marroquinos mantêm um conjunto de características mais mistas e primitivas, reforçando seu papel como possíveis representantes de um tronco comum anterior à grande divisão.

Especialistas externos, como o espanhol Antonio Rosas, do Museu Nacional de História Natural de Madri, pedem cautela. Ele ressalta que nenhum dos dois conjuntos de fósseis pode ser considerado o ancestral comum direto, mas sim membros de linhagens muito próximas à bifurcação. "Podem ser considerados membros de linhagens proximamente aparentadas, perto da bifurcação ancestral", avalia.

A pesquisa reforça a visão de uma "origem africana profunda" para nossa espécie e seus parentes próximos. Cada novo fóssil desenterrado no continente africano ajuda a preencher o complexo quebra-cabeça de como, quando e onde as diferentes linhagens do gênero Homo começaram seus caminhos separados, culminando na jornada única do Homo sapiens pelo planeta.