Fezes eram remédio na Roma Antiga: frasco milenar confirma prática terapêutica
Uma análise química inédita realizada em um frasco romano de quase dois mil anos identificou, pela primeira vez, vestígios de fezes humanas em um recipiente destinado a armazenar substâncias terapêuticas. O achado, publicado no Journal of Archaeological Science: Reports, fornece a primeira evidência material concreta de uma prática descrita em textos médicos da Antiguidade, revelando aspectos fascinantes da medicina ancestral e seus surpreendentes paralelos com a ciência moderna.
O frasco e a descoberta
O objeto analisado é um unguentarium, tipo de frasco de vidro alongado utilizado na Roma Antiga para guardar perfumes, cosméticos e preparações medicinais. A peça está hoje no Museu de Arqueologia de Bergama, na Turquia, e foi datada do século II d.C. Ao raspar o interior do recipiente, os pesquisadores encontraram pequenas lascas de um material escuro e ressecado.
A amostra foi triturada e submetida a análises químicas que identificaram marcadores compatíveis com fezes humanas. Também foram detectados compostos aromáticos derivados de tomilho, possivelmente usados para disfarçar o odor desagradável do material. Esta descoberta material preenche uma lacuna histórica importante, pois até agora essas recomendações terapêuticas estavam restritas apenas aos textos antigos.
Para que serviam as fezes na medicina romana?
Registros históricos mostram que médicos influentes da Antiguidade recomendavam o uso de excrementos, principalmente de animais, como parte de tratamentos para:
- Inflamações diversas
- Infecções de diferentes naturezas
- Distúrbios reprodutivos
- Problemas de pele
O renomado médico Cládio Galeno menciona esse tipo de prática diversas vezes em seus escritos e cita especificamente o uso de fezes humanas, especialmente de crianças submetidas a dietas específicas. A presença de fezes humanas em um recipiente destinado a unguentos indica que esse material provavelmente era usado de forma tópica, aplicado sobre a pele, ou fazia parte de preparações consideradas terapêuticas na época.
Contexto histórico e persistência da prática
Na Antiguidade, não havia uma separação clara entre cosmético, medicamento e práticas associadas à higiene ou a rituais. Este tipo de tratamento com excrementos parece ter persistido durante toda a Idade Média, mantendo-se como parte do arsenal terapêutico de várias culturas, e desapareceu gradualmente a partir do século XVIII, com o avanço do conhecimento científico e das práticas de higiene.
O frasco analisado representa uma janela única para compreender como os romanos preparavam e armazenavam suas substâncias medicinais, oferecendo insights valiosos sobre suas concepções de saúde e doença.
Paralelos com a ciência moderna
Embora o uso de fezes como medicamento pareça estranho e repulsivo pelos padrões atuais, a ciência moderna investiga procedimentos conhecidos como transplantes fecais, nos quais microrganismos presentes nas fezes são utilizados para restaurar o equilíbrio do microbioma intestinal. Esses procedimentos ainda são considerados experimentais e exigem triagens rigorosas, já que fezes podem transmitir patógenos perigosos.
Mesmo assim, estudos contemporâneos indicam que podem trazer benefícios em casos específicos, como:
- Distúrbios intestinais graves
- Desequilíbrios da flora bacteriana
- Infecções recorrentes por Clostridium difficile
Pesquisas recentes em animais mostram que a transferência de microbiota de indivíduos mais jovens para mais velhos pode produzir efeitos associados ao rejuvenescimento do intestino, sugerindo que os antigos romanos podem ter intuído, de forma primitiva, alguns princípios que a ciência moderna só agora começa a compreender plenamente.
A descoberta no frasco romano não apenas confirma práticas históricas descritas em textos, mas também nos convida a refletir sobre a evolução do conhecimento médico e as surpreendentes conexões entre as práticas ancestrais e a pesquisa científica contemporânea.



