Arrepios sem motivo aparente, desconforto inexplicável em porões ou inquietação em prédios antigos. Por séculos, essas experiências foram atribuídas ao sobrenatural. Hoje, a ciência oferece uma hipótese mais terrena: o infrassom, ondas sonoras abaixo de 20 hertz, o limite inferior da audição humana.
Presentes em dutos, sistemas de ventilação, trânsito e fenômenos naturais como tempestades e terremotos, essas ondas não são percebidas conscientemente. No entanto, um estudo publicado no dia 26 na revista Frontiers in Behavioral Neuroscience indica que o corpo pode reagir a elas.
O experimento
O psicólogo Rodney Schmaltz, da Universidade MacEwan, no Canadá, e sua equipe recrutaram 36 participantes. Cada um ouviu, por cinco minutos, melodias relaxantes ou sons perturbadores. Metade deles, sem saber, também foi exposta a infrassom de 18 Hz emitido por subwoofers escondidos.
Os resultados apontam para uma direção clara: os expostos ao infrassom relataram maior irritabilidade, descreveram a música como mais triste e demonstraram menos interesse. Além disso, amostras de saliva revelaram níveis mais altos de cortisol, o hormônio do estresse. Nenhum participante detectou a presença do infrassom.
Surpreendentemente, a crença de ter ouvido o infrassom não alterou humor nem cortisol. A reação ocorreu mesmo sem consciência. Os efeitos, porém, correspondem a uma breve exposição; o impacto a longo prazo ainda é desconhecido.
Contexto histórico
A ideia não é nova. Pesquisas anteriores já apontaram para ansiedade, desconforto e problemas de sono, com resultados mistos. O estudo atual fornece evidência de uma relação mensurável entre infrassom e cortisol, um indicador objetivo de estresse.
Isso ajuda a entender por que certos lugares, especialmente prédios antigos com canos e sistemas de ventilação que geram vibrações de baixa frequência, produzem desconforto. Segundo Schmaltz, se uma pessoa entra em um espaço com infrassom, pode sentir-se inquieta sem saber por quê. Se já acredita que o lugar é "assombrado", essa sensação pode ser interpretada como algo paranormal.
Em 1988, o cientista Vic Tandy trabalhava em um laboratório com fama de assombrado. Funcionários sentiam-se inquietos, e uma faxineira saiu em pânico. Tandy viu uma figura cinza em sua visão periférica. Ao investigar, descobriu que um exaustor de ar recém-instalado gerava ondas de baixa frequência. Quando o aparelho parou, os fenômenos desapareceram.
Limitações e próximos passos
O psicólogo Chris French, especialista em crenças paranormais, disse ao The Guardian que é "plausível" que o infrassom contribua para a sensação de assombração, mas não explica fenômenos mais extremos. Schmaltz esclareceu ao Gizmodo: "O infrassom não faz as pessoas acreditarem que viram um fantasma. O que ele pode causar é um desconforto inexplicável."
O aumento de cortisol não é inerentemente negativo; é uma resposta adaptativa. O problema é a exposição prolongada, que pode afetar a saúde física e mental, segundo o coautor Trevor Hamilton.
O estudo tem limitações: amostra pequena (36 pessoas) e apenas uma frequência analisada. "Este foi um primeiro passo", reconhece Kale Scatterty, autor principal. Pesquisas futuras devem explorar mais frequências, durações e grupos diversos. Se confirmados, os achados podem impactar a regulamentação de ruído e o projeto de espaços.
Schmaltz reflete: "Da próxima vez que algo parecer inexplicavelmente estranho em um porão ou prédio antigo, considere que a causa pode ser a vibração dos canos, em vez de espíritos inquietos."



