Jovem cearense brilha em competição científica internacional com projeto social
A estudante Yanna Queiroz, de apenas 16 anos, está prestes a viver um dos momentos mais importantes de sua vida acadêmica. Aluna do 3º ano do ensino médio em uma escola pública de Iracema, interior do Ceará, ela foi selecionada para representar o Brasil na Regeneron International Science and Engineering Fair (ISEF), considerada a maior competição internacional de ciências pré-universitária do mundo, que acontecerá em Phoenix, nos Estados Unidos, em maio.
Projeto premiado combina tecnologia e impacto social
A conquista veio após Yanna ser premiada na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (FEBRACE) com sua pesquisa intitulada "Rastreando a demografia do feminicídio no Ceará (2022-2025) através do aprendizado de máquina e análise cartográfica". O trabalho, desenvolvido quando ela ainda estava no 2º ano do ensino médio, utilizou inteligência artificial para analisar dados sobre feminicídios no estado cearense.
"Eu sempre gosto muito de fazer trabalhos voltados para o social. E a gente está tendo uma tomada muito crescente de feminicídios, não só no Ceará, mas também no Brasil. Só que eu decidi levar assim como enfoque principal na minha pesquisa o Ceará, porque é a região onde eu vivo", explicou a jovem cientista.
Metodologia rigorosa e resultados impactantes
O projeto coletou e analisou 174 registros de feminicídios no Ceará, extraindo informações detalhadas sobre:
- Perfil demográfico das vítimas (idade, local de residência, raça)
- Contexto das mortes
- Distribuição geográfica dos casos
Os testes realizados na ferramenta desenvolvida por Yanna apresentaram uma acertabilidade de quase 99%, demonstrando a eficácia da metodologia. A pesquisa identificou padrões preocupantes:
- A maioria das vítimas tinha entre 20 e 30 anos
- Mulheres pretas e pardas eram as mais afetadas
- A violência doméstica por parte de ex-cônjuges ou cônjuges atuais era a principal causa
Parceria acadêmica e orientação especializada
O projeto contou com a orientação de Helyson Braz, estudante de doutorado na Universidade Federal do Ceará (UFC), através de uma parceria entre a universidade e a Escola de Ensino Médio de Tempo Integral Deputado Joaquim de Figueiredo Correia. A colaboração foi viabilizada pelo Laboratório de Farmacologia de Venenos e Toxinas (LAFAVET) e pela Associação Brasileira de Jovens Cientistas.
"Justamente para a gente entender e fazer algum cálculo ou até mesmo criar algum índice que pudesse explicar quais seriam as regiões mais violentas e quais seriam as regiões que tinham maior risco de acontecer, baseado nessas evidências demográficas", explicou o orientador sobre os objetivos da pesquisa.
Potencial para políticas públicas
A equipe responsável pelo projeto espera que os dados coletados possam auxiliar o poder público no combate ao feminicídio. A plataforma desenvolvida por Yanna tem potencial para:
- Identificar áreas com maiores índices de feminicídio
- Orientar a construção de novas delegacias de apoio à mulher
- Subsidiar projetos como a Casa da Mulher
- Contribuir para políticas públicas mais eficazes de prevenção
Reconhecimento nacional e internacional
Na FEBRACE, realizada na Universidade de São Paulo (USP), o projeto de Yanna conquistou o 1º lugar na categoria Ciências Sociais Aplicadas e ISEF. A feira reuniu 297 projetos finalistas de todo o país e destacou tendências importantes na nova geração de cientistas brasileiros, incluindo o uso de inteligência artificial para solucionar problemas sociais.
Segundo a professora Roseli de Deus Lopes, coordenadora geral da FEBRACE, "A FEBRACE revela uma geração de jovens que não apenas compreende os problemas do mundo atual, mas propõe soluções consistentes, com base científica e impacto real. É um retrato do potencial transformador da educação quando aliada à investigação e à criatividade".
Futuro promissor
Yanna, que já havia realizado pesquisas sobre queimadas no Ceará anteriormente, revelou que pretende cursar medicina após concluir o ensino médio. Sua trajetória demonstra como o investimento em educação pública e em programas de iniciação científica pode revelar talentos excepcionais e contribuir para a solução de problemas sociais complexos.
Entre os dias 9 e 15 de maio, a jovem cearense estará em Phoenix representando não apenas seu estado, mas todo o Brasil, em um palco global que reúne os melhores jovens cientistas do mundo. Sua participação na ISEF 2026 abre portas para oportunidades acadêmicas e profissionais, além de inspirar outros estudantes brasileiros a seguirem carreiras científicas.



