Livro revela 121 anos esquecidos na história de Tatuí antes dos 200 anos oficiais
Livro revela 121 anos esquecidos na história de Tatuí

Um novo livro escrito pelo historiador Marcel Defensor promete reescrever parte da história de Tatuí, no interior de São Paulo. A obra "No Tempo D'Antes – Os 121 anos que Tatuí esqueceu" reúne detalhes inéditos sobre a formação do município, que oficialmente completa 200 anos no dia 11 de agosto de 2026. Segundo o autor, a data oficial marca apenas o registro das primeiras demarcações de ruas de um povoado que já existia havia anos.

Pesquisa de quase duas décadas

Marcel Defensor, natural da capital paulista e criado em Quadra (SP), iniciou as pesquisas motivado pelo interesse em compreender melhor a história da cidade onde viveu. O trabalho levou quase 20 anos para ser concluído e questiona parte das informações estabelecidas pelo doutor Laurindo Dias Minhoto, importante político e historiador responsável pela cronologia oficial da cidade.

"A história oficial da cidade dizia que tudo começava a partir de 1875, mas havia um livro na faculdade que afirmava que era a partir do começo dos anos 1800. Foi daí que percebi que, para escrever sobre Quadra, eu teria que entender primeiro sobre Tatuí - que é de onde a cidade veio - para depois ramificar", explica Marcel ao g1.

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Revisão histórica

O livro revisita o período entre 1709 e 1830, considerado os primeiros anos da formação de Tatuí. Marcel decidiu seguir a linha do tempo, partindo dos documentos mais antigos em direção aos mais atuais. A partir disso, chegou na participação de um nome que não é citado na formação de Tatuí: Rafael Tobias de Aguiar, ou Brigadeiro Tobias, como é mais conhecido.

"Tudo começou quando ele assumiu os negócios de família: o pedágio de tropeiros em Curitiba e as ações da Fábrica de Ferro São João do Ipanema, que ficava em Iperó. Ele tinha um terreno em Tatuí, e tentou de todas as formas tirar uma paróquia que ficava na fábrica e mudá-la para a cidade", detalha.

As pistas da participação de Brigadeiro Tobias surgiram por meio da análise de correspondências da Fábrica de Ferro, que ficam no Arquivo Público de São Paulo. Na história oficial, o primeiro povoado que formou Tatuí teria sido composto de pessoas que saíram da fábrica, no entanto, os documentos encontrados pelo historiador mostram outra versão. "A história institucional fala que as matas ao redor da fábrica deveriam ser usadas para alimentar os fornos da fundição, mas o corte foi proibido e o pessoal teria sido expulso de lá. Isso não aconteceu. O corte foi, de fato, proibido, mas uma parte das pessoas continuaram morando lá", pontua.

As correspondências mostram que Tobias de Aguiar tentou, por muitas vezes, convencer Dom João VI e o Governo de São Paulo a retirar os moradores da fábrica por receio de destruição da mata. As alegações foram refutadas pelas autoridades, que afirmaram que a mudança do povoado para Tatuí seria "de interesse próprio" por parte do brigadeiro. "O governador respondeu discordando ponto a ponto do que Tobias dizia porque, se tirassem as pessoas da fábrica, não teria ninguém para fazer carvão. O diretor da fábrica dizia que era de interesse pessoal devido à sesmaria que ele tinha na cidade. Mas, também era de interesse do padre de Sorocaba, já que, depois da criação da paróquia da fábrica por Dom João VI, pararam de pagar dízimo para a paróquia da cidade", descreve.

"Essa revisão na história põe um ponto final na visão da história tradicional de Tatuí, de que o diretor da fábrica teria expulsado as pessoas de lá. Na verdade, aconteceu exatamente o contrário", completa.

Erros históricos

Para o historiador, as divergências sobre a formação da cidade teriam surgido a partir de uma interpretação equivocada de documentos feita por Laurindo Dias Minhoto. Marcel afirma que o possível erro pode ter sido consequência da falta de acesso a recursos e arquivos históricos no início do século XX. "Doutor Laurindo fez um 'Frankenstein' de papeladas, mas não ficou muito claro. Dom João VI negou o pedido de mudar a paróquia da fábrica para Tatuí, colocou um padre fixo e chamou o local de São João do Benfica de Ipanema. Laurindo e os historiadores mais antigos entenderam que a paróquia ficava próximo ao bairro Americana, mas, na verdade, nunca existiu naquela época", corrige.

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200 anos ou mais?

Marcel conta que, entre outros equívocos históricos, está a verdadeira idade do município. Na visão de Laurindo, era necessário um núcleo de casas para formar um povoado - o que, na época, não era considerado essencial. "Ele nunca entendeu que, quando Dom Pedro I criou a paróquia de Tatuí em 1822, não precisava ter um monte de casas agrupadas. Até hoje existem casas e sítios afastados nas zonas rurais das cidades. Em 11 de agosto de 1826, o pessoal da Câmara de Itapetininga veio até aqui e demarcou as primeiras ruas. Laurindo entendeu que isso era a fundação da cidade, mas, na pior das hipóteses, Tatuí foi fundada quatro anos antes", explica.

O livro levanta a hipótese de que as primeiras ocupações na cidade começaram em 1814 e, muito antes disso, há registros de fazendas de gado na localidade em 1709. "Não morava ninguém nas fazendas de gado. Como as cidades no entorno começaram a ficar bem povoadas, como Sorocaba, Boituva e Cerquilho, as pessoas começaram a migrar para onde ninguém era dono de nada. A colonização começou a partir de 1814 e, seis anos depois, já havia gente suficiente para criar a paróquia de Tatuí", finaliza.

Segundo a prefeitura, parte dos pesquisadores e historiadores considera 1822 - e não 1826 - como o ano de fundação de Tatuí, por entender que já existia um distrito constituído na região. Apesar das divergências históricas, 1826 é a data oficial adotada pelos órgãos públicos do município. Tatuí foi elevada à categoria de cidade em 20 de setembro de 1861. Já a instalação da comarca ocorreu em 26 de outubro de 1877. O nome Tatuí tem origem no tupi-guarani e significa "Água do Rio do Tatu". Ao longo dos anos, o município recebeu diferentes grafias, como Tatuuvú, Tatuhú, Tatuhibi, Tatuy e Tatuhy, até chegar à forma atual.