Eldorado do Sul: cidade submersa em 2024 tem bairros fantasmas dois anos depois
Eldorado do Sul: bairros fantasmas dois anos após enchente

Dois anos após a enchente histórica de 2024, que submergiu 90% do município de Eldorado do Sul, na Região Metropolitana de Porto Alegre, a cidade ainda luta para se reconstruir. Nos bairros mais afetados, o silêncio tomou o lugar da rotina agitada, transformando a região em um conjunto de casas vazias e ruas quase desertas. Poucas paredes resistiram à força da água, e o cenário é de abandono.

Vila da Paz: o bairro fantasma

Na Vila da Paz, uma das áreas mais castigadas, o bairro parece ter se tornado um 'fantasma'. Muitos moradores optaram por ir embora, movidos pelo medo de novas cheias. 'Agora em maio estou indo embora. Nasci e me criei em Eldorado', relata Roselaine Fortes, 46 anos, que vai recomeçar a vida em Gravataí. O êxodo se repete em outras localidades. O município possui 15 pontos classificados como de risco ou alto risco de enchentes pelo Serviço Geológico do Brasil. Antes da cheia de 2024, cerca de 40 mil pessoas viviam na cidade; hoje, boa parte migrou para outros municípios.

Impacto econômico e êxodo populacional

A saída em massa afetou diretamente a economia local. Comércio enfraquecido, falta de trabalhadores e redução de consumidores são a nova realidade. 'Isso atinge em cheio o comércio local. Além de não ter mão de obra para trabalhar nas nossas empresas, não temos população suficiente para movimentar a máquina econômica de Eldorado do Sul', afirma Margenato Matos, da Associação de Empresários do município. Segundo a entidade, 1.253 contratos do programa de Compra Assistida foram firmados, e mais de 80% dessas famílias deixaram a cidade definitivamente.

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Quem fica e investe

Apesar do cenário, alguns empreendedores escolheram ficar e investir. No Centro, Vinícius Kohls aplicou cerca de R$ 120 mil em um novo negócio, mas convive com a insegurança. Ele registrou alagamentos recentes após poucos minutos de chuva. 'Já cheguei a ficar ilhado quatro horas sem receber nenhum cliente dentro da loja', conta. Para ele, medidas emergenciais como manutenção da drenagem ajudam, mas não resolvem. A principal cobrança é antiga: a construção do dique de proteção.

Promessa do dique

Considerada a principal obra contra cheias, o dique é símbolo de uma promessa que se arrasta há décadas. Empresários criaram um movimento para pressionar as autoridades, apontando que municípios vizinhos já iniciaram obras semelhantes. A Defesa Civil informou que o projeto foi recalculado para suportar volumes como os de 2024 e está na fase de anteprojeto. A estrutura terá 8,7 km, em formato de ferradura, com barreira de saibro ou concreto. A estimativa é que as obras comecem em 2027. O comerciante Marcos Cruz investe suas economias na reabertura da primeira lotérica da cidade pós-enchente. 'Eldorado teve uma catástrofe e a cidade tem que se preparar com o dique. Se não acreditasse, não estaria aqui', diz.

Governo autoriza 400 novas moradias

Na segunda-feira (27), o governo do Rio Grande do Sul autorizou a construção de 400 moradias permanentes em Eldorado do Sul. A ordem de serviço foi assinada pelo governador Eduardo Leite no mesmo loteamento onde outras 64 casas já estão sendo erguidas. O projeto prevê investimento de R$ 47,6 milhões na área urbanizada e mais R$ 65,8 milhões para as unidades. Ao todo, 464 casas devem atender famílias em moradias temporárias, aluguel social ou estadia solidária. A expectativa é concluir o loteamento até o fim de outubro. Além disso, o Estado investe em outros dois terrenos, totalizando R$ 166 milhões em habitação no município.

A prefeitura afirmou ao g1 que 'muitas pessoas já começaram a voltar e os comércios já se reerguem. As obras estruturantes estão em andamento e os sistemas de proteção devem avançar nas próximas semanas'. O governo do Estado confirmou que o anteprojeto do sistema de proteção do Delta do Jacuí incorpora melhorias e que a licitação, no modelo RDC, está prevista para 2026.

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