Operação militar destrói 80 pistas de garimpo ilegal na Terra Yanomami e mapeia rotas para Venezuela
A operação Catrimani II, conduzida pelas Forças Armadas brasileiras, já destruiu 80 pistas clandestinas utilizadas para atividades de garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami. Além de servirem ao crime ambiental, algumas dessas pistas funcionam como apoio logístico para acesso ao território venezuelano, revelando conexões transfronteiriças do garimpo.
Destruição estratégica com explosivos
Na última ação, realizada na terça-feira (17), militares inutilizaram a pista Lobo D'Almada, localizada na região de Iracema, no sul de Roraima. Com 400 metros de extensão, essa pista havia sido interditada anteriormente em novembro de 2025, mas criminosos a reativaram cobrindo crateras com terra e madeira. Para a nova destruição, foram utilizados 350 quilos de explosivos, instalados em fornilhos escavados a dois metros de profundidade.
A operação exigiu 13 horas e 40 minutos de voo, consumiu 4.200 litros de combustível e mobilizou três helicópteros militares: H-60 Black Hawk da Força Aérea Brasileira, HM-1 Pantera do Exército e UH-15 Super Cougar da Marinha. A pista Lobo D'Almada era considerada de alto impacto devido à intensa presença de garimpeiros e sua localização estratégica às margens do rio homônimo, a cerca de 82 quilômetros da fronteira com a Venezuela.
Mapeamento de rotas internacionais
A operação identificou que, além da Lobo D'Almada, outras três pistas clandestinas são utilizadas para acessar a Venezuela: Dicão, Capixaba e Pupunha. Segundo Nilton Tubino, diretor da Casa de Governo em Roraima, essa rede revela uma mudança na logística do crime. "A gente identifica que podem ser pistas que estão sendo utilizadas para uma estrutura de apoio à Venezuela. Então o avião leva os produtos até ali [Terra Yanomami], uma outra aeronave vem, pega e leva para a Venezuela", explicou Tubino.
O trabalho de destruição faz parte de uma estratégia de asfixia logística da atividade ilegal, que envolve:
- Mapeamento por satélites
- Sobrevoos frequentes
- Monitoramento de inteligência
Dados oficiais mostram que 50 pistas foram destruídas em 2024, 25 em 2025, e outras cinco até 17 de março de 2026.
Desafios e reativações clandestinas
Apesar dos esforços, militares reconhecem que a imensidão da floresta dificulta a repressão permanente. A Terra Yanomami é maior que o território de Portugal e só pode ser acessada por navegação ou helicóptero. Um militar que participou da operação, com identidade preservada por segurança, destacou: "Já é um efeito esperado que ela venha a ser recuperada pelo garimpo. A atividade do garimpo, apesar de ter sido reduzida em mais de 98%, continua atuando de maneira cada vez mais camuflada".
A inteligência da operação mapeou pelo menos oito tentativas recentes de reativação em áreas críticas como Alto Catrimani, Paapiú, Aretha-u e Waikás. Além disso, o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) identificou mais de 30 estradas vicinais fora do território indígena que passaram a ser usadas como pistas improvisadas.
Contexto da operação Catrimani II
A operação Catrimani II está ativa desde abril de 2024, dando continuidade à fase humanitária inicial. Seu foco atual é a retirada de garimpeiros remanescentes e a destruição da infraestrutura ilegal, incluindo acampamentos, maquinários e pistas. Coordenada pelo Comando Operacional Conjunto, a missão reúne forças de segurança pública e agências governamentais para manter pressão sobre rotas ilícitas.
Tubino reconheceu que Roraima ainda não conseguiu avançar para a fase de apenas monitorar o território: "A gente ainda continua na ação de repressão com todos os efetivos que a gente tem disponível para diminuir e chegar aos 100% de atividade". Todas essas ações integram a força-tarefa do governo federal criada em janeiro de 2023 para combater a crise humanitária e o garimpo ilegal na Terra Yanomami.



