Voçorocas transformam Buriticupu em cidade das crateras gigantes no Maranhão
Há quase quatro décadas, o município de Buriticupu, localizado a 415 km de São Luís, convive com um problema geológico devastador: as voçorocas. Essas crateras gigantes, que chegam a mais de 600 metros de extensão e 80 metros de profundidade, já destruíram 83 residências e forçaram aproximadamente 360 famílias a abandonarem seus lares. A situação se agravou significativamente a partir de 2015, quando o crescimento urbano desordenado levou a população para áreas vulneráveis, acelerando os processos erosivos.
Famílias desamparadas e promessas não cumpridas
Em 2023, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional liberou R$ 9.733.169,07 em recursos federais para enfrentar o problema, com R$ 7.854.243,24 destinados especificamente à construção de 89 casas no conjunto habitacional Nova Buriti. O prazo para entrega das unidades terminou em julho de 2024, mas nenhuma família foi reassentada. Das 27 casas prontas há quase um ano, algumas já apresentam infiltrações nas paredes e forros, enquanto outras 33 unidades permanecem com obras paralisadas.
"A gente se sente incapacitado. Minha mãe já procurou muitas vezes o município, advogado, secretarias e ministérios, e não consegue resolver nada. Ou é burocracia demais ou é descaso", desabafa Jeferson dos Santos, universitário e morador afetado pelas erosões. Parte das famílias desabrigadas migrou para outros municípios, outras se abrigaram com parentes, e aproximadamente 90 recebem aluguel social de R$ 500 pago pela prefeitura, valor que frequentemente atrasa.
Risco permanente e acidentes fatais
As voçorocas já causaram sete mortes em Buriticupu, com acidentes ocorrendo devido à falta de sinalização adequada. Recentemente, o idoso Francisco Cavalcante, de 72 anos, caiu em uma das crateras durante a noite, sofrendo fraturas e necessitando de internação hospitalar. Em 2023, um policial militar aposentado caiu aproximadamente 80 metros dentro de uma voçoroca enquanto manobrava sua caminhonete.
Isaías Cardoso Aguiar, presidente da Associação de Áreas Atingidas por Voçorocas, alerta para outro problema grave: a proximidade do conjunto Nova Buriti com as crateras existentes. "O residencial está a cerca de 600 metros em linha reta das voçorocas que se formaram atrás do conjunto Eco Buriti", explica. Mesmo obras de contenção iniciadas em 2025 já foram comprometidas por enxurradas que levaram parte do material utilizado.
Ação judicial e medidas proteladas
Em fevereiro de 2025, a Justiça do Maranhão determinou, através de Ação Civil Pública movida pelo Ministério Público, que o município adotasse medidas urgentes: isolamento e sinalização das áreas de risco, atualização do cadastro de famílias afetadas, garantia de aluguel social e apresentação de plano detalhado de contenção das erosões. A prefeitura, no entanto, recorreu da decisão em março do mesmo ano, e o caso aguarda julgamento no Tribunal de Justiça maranhense.
O prazo para apresentação de documentos comprovando o cumprimento das medidas judiciais terminou na sexta-feira passada, mas até o momento nenhum relatório foi entregue pelas autoridades municipais. Enquanto isso, o Ministério da Integração afirmou que mais de R$ 50 milhões estão empenhados ou em análise para projetos de recuperação, mas a Prefeitura de Buriticupu não se manifestou sobre o caso.
Causas do problema e possíveis soluções
As voçorocas são fenômenos geológicos acelerados pela ação da chuva em solos sem cobertura vegetal. Em Buriticupu, sua formação está diretamente ligada à expansão urbana desordenada, ao desmatamento da vegetação nativa em áreas de alta declividade e à falta de planejamento no crescimento da cidade, situada no topo de uma região com cerca de 200 metros de altitude.
O professor Fernando Bezerra, da Universidade Estadual do Maranhão, defende medidas urgentes: "É necessário investir na proteção do solo com cobertura vegetal, preservar encostas e nascentes, retirar a população das áreas de risco e aplicar técnicas de bioengenharia". Enquanto soluções definitivas não são implementadas, as famílias de Buriticupu continuam vivendo sob a constante ameaça de verem suas casas e vidas serem engolidas pelas crateras que não param de crescer.



