Reconstrução pós-enchente no Vale do Taquari avança com demolições em áreas de risco
As cidades atingidas pelas enchentes históricas de 2024 no Vale do Taquari, região mais afetada do Rio Grande do Sul, enfrentam agora uma das etapas mais difíceis do processo de reconstrução: a remoção de casas condenadas e a limpeza de áreas com alto risco de novos desastres. Em pelo menos seis municípios, tratores e caminhões trabalham incessantemente para abrir espaço e garantir que ninguém volte a habitar locais onde a água pode alcançar novamente.
Demolições avançam em múltiplos municípios
Embora algumas propriedades tenham resistido fisicamente às tragédias, todas estão situadas em zonas de risco, como áreas de deslizamento ou locais sujeitos a novas inundações. Para prevenir que moradores retornem a pontos perigosos e evitar futuras catástrofes, as prefeituras estão demolindo imóveis condenados, limpando terrenos e transformando esses espaços em áreas seguras para a comunidade.
Em Estrela, nove casas localizadas em áreas de risco já foram ao chão. As famílias desalojadas receberam novas moradias através do programa Compra Assistida, enquanto a prefeitura continua negociando a saída segura de quem ainda permanece em locais considerados perigosos. Mais de 40 imóveis já foram oficialmente transferidos para o município, deixando de pertencer aos antigos proprietários e tornando-se propriedade do Executivo municipal.
Em Colinas, as equipes da Defesa Civil concentram esforços na remoção pesada de entulhos e na derrubada dos imóveis desapropriados. Na Vila Mariante, distrito de Venâncio Aires, a realidade é semelhante: aproximadamente 90 imóveis foram condenados. Com R$ 5 milhões repassados pelo governo estadual, os trabalhos de retirada de entulho também estão em pleno andamento.
Muçum destrói primeiras residências em área de arraste
Em Muçum, imóveis localizados em região de arraste e pertencentes a famílias já reassentadas começaram a ser demolidos. Até o momento, vinte casas foram destruídas, marcando um ponto crucial na transformação dessas áreas. A moradora Inês Rodrigues, que viveu no local por 32 anos, compartilha sua experiência emocional: "Vivi aqui por 32 anos, criei meus filhos, criei o meu neto. Então, é um sentimento que tu não vai esquecer mais".
O espaço onde Inês residia será transformado em área de lazer e convivência comunitária. Atualmente, ela mora no novo bairro Jardim Cidade Alta 2, construído através de parceria entre governos e empresas privadas. A transição foi amenizada pelo fato de que seus antigos vizinhos foram realocados juntos: "Foi o que eu pedi: que me botasse perto dos meus vizinhos. A gente está tudo na mesma rua, só trocamos o bairro", relata.
Em Lajeado, quatro casas começaram a ser demolidas. A prefeitura identificou sete áreas atingidas pela força do Rio Taquari e iniciou processos para evitar que essas regiões voltem a ser ocupadas, implementando medidas preventivas de segurança.
Famílias aguardam respostas enquanto impasses persistem
Enquanto várias cidades avançam nos trabalhos de reconstrução, Roca Sales, uma das mais afetadas pela tragédia de 2024, enfrenta um impasse significativo. Apesar de mais de 100 moradores terem sido contemplados pelo programa Compra Assistida, nenhuma casa foi demolida até o momento.
Na Rua Cândido Godói, apenas duas moradias resistiram às três enchentes consecutivas de 2023 e 2024. A dona de casa Simone Cardoso perdeu três imóveis: dois que alugava e a casa onde morava. Ela não se enquadrou nas regras do programa por ter renda mensal acima do limite estabelecido e precisou financiar um novo imóvel por conta própria.
"As respostas que temos recebido não são nada agradáveis, porque temos muita dívida para pagar. A gente só queria, daqui para frente, pelo menos ter uma vida digna, dar continuidade a tudo que tínhamos antes. A gente morava bem", explica Simone com frustração.
O governo do Estado informou que estuda possibilidades de indenização para casos como o de Simone, demonstrando preocupação com situações que ficaram à margem dos programas oficiais. Paralelamente, estão em andamento análises técnicas para redefinir planos diretores municipais e reorganizar áreas de arraste, visando uma reconstrução mais segura e sustentável para todas as comunidades afetadas.
