Idoso sobrevive a queda em voçoroca e é resgatado após operação complexa em Buriticupu
Um idoso identificado como Francisco Cavalcante Nascimento de Sousa foi resgatado com vida após cair em uma voçoroca na noite de quinta-feira, 26 de setembro, no bairro Santos Dumont, em Buriticupu, município localizado a aproximadamente 415 quilômetros de São Luís, no Maranhão. O estado de saúde atualizado da vítima não foi divulgado pelas autoridades.
Operação de resgate mobiliza múltiplas equipes de emergência
De acordo com informações do 30º Batalhão da Polícia Militar, a guarnição da Força Tática foi acionada por telefone para apoiar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) na ocorrência registrada na Rua da Piçarra. Ao chegarem ao local, os policiais encontraram as equipes de resgate já realizando procedimentos técnicos de busca e retirada da vítima.
O caso mobilizou efetivos do Samu, Corpo de Bombeiros Civil e Polícia Militar, que utilizaram cordas e equipamentos especiais para alcançar o idoso. Conforme o boletim de ocorrência, o resgate durou várias horas até que a vítima fosse localizada e retirada da área de difícil acesso, onde havia risco iminente de deslizamento de terra.
Após ser removido com sucesso, Francisco recebeu os primeiros atendimentos médicos ainda no local e, posteriormente, foi encaminhado à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Buriticupu. A Polícia Militar permaneceu na área até a conclusão total dos trabalhos das equipes de emergência.
Problema crônico: voçorocas ameaçam Buriticupu há três décadas
Há aproximadamente 30 anos as voçorocas, algumas com profundidade de até 80 metros, representam uma ameaça constante para a cidade de Buriticupu. O período chuvoso intensifica a preocupação dos moradores que vivem em áreas próximas a essas crateras gigantescas.
Nos últimos anos, diversos residentes tiveram que abandonar suas residências devido ao avanço progressivo das voçorocas. Em 2023, um policial militar de 79 anos também caiu em uma dessas crateras, em um acidente que chamou atenção para a gravidade da situação.
O último incidente registrado na região ocorreu em março de 2025, quando uma jovem identificada como Maisa Sousa caiu em uma voçoroca de aproximadamente 80 metros de profundidade. A vítima foi resgatada com vida, mas o caso evidenciou os riscos permanentes enfrentados pela população.
Contexto geológico e ambiental das voçorocas
As voçorocas são fenômenos geológicos que se formam como fendas no solo, geralmente provocadas pela ação erosiva da água da chuva. Quando não são contidas adequadamente, essas crateras podem atingir lençóis freáticos, agravando ainda mais o problema.
Em Buriticupu, as voçorocas surgiram como consequência da expansão urbana acelerada e do desmatamento da vegetação nativa em áreas de alta declividade. Atualmente, os abismos chegam a medir até 70 metros de altura e 500 metros de comprimento, representando uma ameaça real de "engolir" residências inteiras.
Cidade em estado de calamidade pública
Em fevereiro de 2025, a Prefeitura de Buriticupu decretou estado de calamidade pública devido ao novo avanço das voçorocas, agravado pelo retorno do período chuvoso. Nos últimos meses, mais casas foram literalmente engolidas pelas crateras em expansão.
O decreto municipal, datado de 11 de fevereiro de 2025, afirma que existem 1.200 pessoas em 250 moradias situadas em áreas de risco nos seguintes bairros: Caeminha, Centro, Vila Isaias, Santos Dumont, Eco Buriti, Terra Bela, Sagrima e Terceira Vicinal.
Até 2024, 180 famílias estavam em situação de risco. Em 2025, esse número aumentou significativamente, com mais famílias sendo obrigadas a abandonar suas residências próximas às áreas onde as voçorocas já alcançaram níveis críticos.
Determinações judiciais e respostas municipais
Diante do avanço contínuo das voçorocas, a Justiça do Maranhão determinou, no início de fevereiro de 2025, que o município de Buriticupu adotasse providências urgentes para a contenção das crateras em diversos pontos da cidade. A sentença atendeu a um pedido formal do Ministério Público.
Entre as medidas determinadas judicialmente estão:
- Delimitar e isolar, no prazo de 30 dias, todas as áreas com risco de desabamento
- Atualizar o cadastro de famílias residentes nas proximidades das áreas afetadas
- Providenciar aluguel social para famílias expostas a risco iminente
- Apresentar, em 120 dias, plano detalhado para execução de obras de contenção
- Implementar, em 180 dias, medidas para mitigação dos impactos ambientais
- Recuperar ambientalmente as áreas degradadas no prazo máximo de quatro anos
O prefeito de Buriticupu, João Carlos (PP), reeleito em 2024, afirmou que foram realizadas algumas obras de contenção no ano anterior, que estariam ajudando a diminuir os transtornos causados pelas chuvas. No entanto, moradores relatam que esses serviços "não tiveram resultado" significativo.
O gestor municipal também declarou estar aguardando o envio de recursos e serviços prometidos pelo governo federal, argumentando que a prefeitura não conseguiria resolver o problema apenas com seus próprios esforços financeiros e operacionais.
Histórico de negligência e desafios persistentes
Provocado pela erosão do solo, o problema das voçorocas em Buriticupu persiste há mais de três décadas e já causou destruição de propriedades e até mortes. Até o momento, nunca houve uma solução definitiva ou contenção eficaz que impeça o avanço progressivo das crateras.
Segundo relatos dos moradores, nos últimos anos ocorreram apenas algumas ações paliativas em áreas consideradas críticas, principalmente próximas a rodovias. Em outras regiões da cidade, as voçorocas continuam avançando inexoravelmente, engolindo casas e ampliando as áreas de risco.
Em março de 2023, a Defesa Civil Nacional esteve em Buriticupu avaliando a situação gravíssima. Na ocasião, também foi decretado estado de calamidade pública. O Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional se comprometeu a ajudar na resolução do problema, mas, segundo a prefeitura, houve repasse de apenas R$ 687 mil para aquisição de materiais de assistência humanitária.
Perspectivas futuras e preocupações da população
Devido à incidência contínua do processo erosivo e aos riscos crescentes à segurança dos moradores e ao meio ambiente, o Ministério Público instaurou Inquérito Civil específico para o caso. Ficou acordado que o município deveria delimitar e isolar áreas perigosas, interditar imóveis em risco, remover pessoas expostas e realizar ações concretas de contenção das voçorocas.
No entanto, segundo o promotor de justiça José Frazão Menezes, ao longo do processo houve dificuldade significativa na comprovação das ações efetivamente adotadas pelo município. "Nossa expectativa agora é que não sejam apenas adotadas, mas devidamente comprovadas todas as providências determinadas pela justiça", afirmou o membro do Ministério Público.
Enquanto as determinações judiciais aguardam implementação completa, moradores como Kaillany Pinheiro, estudante e residente do Residencial Eco Buriticupu, expressam seu temor constante: "É horrível. Em tempos de chuva, eu não tenho vontade de sair de casa... porque eu fico preocupada de chegar e ter acontecido alguma coisa... é um horror".
A situação em Buriticupu permanece crítica, com centenas de famílias vivendo sob a ameaça constante das voçorocas que continuam a se expandir, transformando a paisagem urbana em um cenário de risco permanente para a população local.



