Falência Hídrica: Brasil tem 3.464 mortes e R$ 151 bi em prejuízos por chuvas em 30 anos
Brasil: 3.464 mortes e R$ 151 bi em prejuízos por chuvas em 30 anos

Falência Hídrica: Brasil tem 3.464 mortes e R$ 151 bi em prejuízos por chuvas em 30 anos

Nas últimas três décadas, o Brasil enfrentou uma tragédia anunciada e recorrente: as chuvas intensas que transformam cidades em cenários de caos, resultando em mortes, doenças e prejuízos econômicos devastadores. De acordo com um estudo abrangente do Instituto Trata Brasil, entre 1991 e 2023, o país registrou 3.464 vítimas fatais e um rombo financeiro superior a R$ 151 bilhões causados por desastres relacionados a inundações e tempestades.

Despreparo Urbano e a Tempestade Perfeita

Um dado alarmante revela a raiz do problema: apenas 5,3% dos municípios brasileiros possuem Planos Diretores de Drenagem e Manejo de Águas Pluviais. Essa ausência de planejamento integrado cria uma combinação perigosa com a ocorrência cada vez mais frequente de eventos climáticos extremos. "Os municípios devem elaborar e implementar esses planos para mapear riscos, identificar áreas vulneráveis e propor soluções integradas que minimizem os impactos na vida do cidadão", alerta Luana Siewert Pretto, presidente executiva do Instituto Trata Brasil.

No período analisado, o Brasil contabilizou 25,9 mil desastres desse tipo, sendo que 74% deles estão diretamente relacionados a chuvas intensas. A falta de sistemas de drenagem adequados agrava significativamente os impactos, resultando em:

  • Alagamentos generalizados
  • Deslizamentos de terra
  • Prejuízos econômicos e sociais acumulados
  • Rompimento de infraestruturas críticas

Consequências em Cadeia: Doenças e Falência Hídrica

As inundações urbanas se somam a outra tragédia brasileira: os baixos percentuais de coleta e tratamento de esgoto. Quando o esgoto bruto se mistura com a água da chuva, completa-se um desastre sanitário de proporções alarmantes. Doenças como a leptospirose têm aumentado dramaticamente nos últimos anos, tornando-se epidêmicas durante os períodos chuvosos, principalmente nas capitais e áreas metropolitanas.

Em 2024, foram registrados 4.142 casos de leptospirose, mais que o dobro dos 1.804 casos contabilizados em 2021, segundo dados consolidados do Ministério da Saúde. Além das mortes e doenças, as inundações frequentemente causam o rompimento de adutores, interrompendo o abastecimento de água para populações inteiras.

Com as mudanças climáticas, surge um fenômeno ainda mais perverso: "A tendência é termos restrição de oferta de água de 3,4% na média do ano. Está diminuindo o volume médio de água dos nossos rios", explica Luana Pretto, citando levantamento realizado pelo instituto no final de 2025. O relatório do Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas, lançado em janeiro de 2026, alerta que o abastecimento de água entrou numa era de falência após décadas de uso excessivo, poluição e perturbações climáticas.

Racionamento de Água: Cenário Crítico em Diversas Regiões

O Brasil enfrenta um paradoxo climático preocupante: de um lado, inundações causadas por chuvas torrenciais; de outro, a falta de chuvas perenes que garantem a sustentabilidade das bacias hidrográficas. O avanço das temperaturas e a redução do número de dias de chuva tendem a intensificar a aridez de diversas regiões brasileiras.

Na média das cidades brasileiras, o racionamento de água deve chegar a 12 dias por ano. Porém, em regiões onde o número de dias de chuva já é menor, como em partes do Nordeste e do Centro-Oeste, as projeções indicam que os racionamentos poderão superar 30 dias anuais, com consequências graves para a saúde e a qualidade de vida da população.

Marco Legal do Saneamento: Desafios e Urgência Política

Estamos na metade do prazo estabelecido para a universalização do saneamento básico previsto no Marco Legal para 2033. "Temos estados, como São Paulo, onde a meta é antecipar a universalização, e estados como Piauí e Pará, em que a meta já está para 2040 porque, como prevê a lei, não há capacidade financeira para que aconteça antes disso", destaca a presidente do Instituto Trata Brasil.

Para Luana Pretto, é fundamental que deputados e senadores assumam já nas campanhas eleitorais de 2026 o compromisso de não postergar o prazo da universalização. "Temos que fazer cumprir essa meta e aplicar penalização a quem não se mexeu até agora. Se deixarmos postergar, a lei vai cair em descrédito total", avalia a especialista.

As eleições deste ano se apresentam como cruciais para o cumprimento ou não do Marco Legal do Saneamento. Uma demanda que deve estar no topo das preocupações do eleitor e pautar os debates eleitorais, exigindo:

  1. Compromisso político com prazos estabelecidos
  2. Recursos específicos para áreas vulneráveis e rurais
  3. Planos de governo com metas intermediárias e finais claras
  4. Avaliação da capacidade econômico-financeira dos estados

A especialista defende a necessidade de pensar em subsídios para locais mais pobres, lembrando a importância que o programa de cisternas teve no acesso à água no semiárido no início dos anos 2000. "Há locais que são muito pobres e que, se não houver subsídio, o saneamento não vai acontecer", analisa Luana Pretto.

O cenário brasileiro exige ações imediatas e coordenadas entre diferentes níveis de governo. Enquanto apenas 5,3% dos municípios possuem planos de drenagem adequados, a população continua sofrendo as consequências de um despreparo histórico que custa vidas, saúde e recursos financeiros em escala nacional.