Receita dos Correios com encomendas internacionais despenca 80% com programa Remessa Conforme
Receita dos Correios com encomendas internacionais cai 80%

A participação das receitas com a distribuição de encomendas internacionais nas contas dos Correios sofreu uma queda drástica, passando de 22% em 2023 para apenas 7,8% em 2025, de acordo com as demonstrações financeiras da estatal publicadas no Diário Oficial da União na quinta-feira (24). Esse declínio está diretamente relacionado à criação do programa Remessa Conforme, implementado pelo Ministério da Fazenda, que encerrou o monopólio dos Correios na distribuição de encomendas internacionais no Brasil e reduziu significativamente a receita da empresa nos últimos dois anos.

Queda nas receitas

Em 2024, a estatal registrou uma receita de R$ 3,9 bilhões com encomendas internacionais, já representando uma redução de R$ 530 milhões em relação a 2023. Em 2025, o valor despencou para R$ 1,3 bilhão, uma redução de R$ 2,6 bilhões em comparação ao ano anterior. Um documento produzido pela Diretoria Econômico-Financeira (Diefi) dos Correios aponta que a criação do programa Remessa Conforme escancarou os problemas econômico-financeiros da empresa.

A diretora Loiane de Carvalho Bezerra de Macedo afirmou no documento: "A redução da participação de mercado no segmento de encomendas internacionais, que até agosto de 2024 representava uma espécie de 'monopólio' para os Correios, evidenciou a ausência de reposicionamento negocial da Empresa, diante das transformações do comportamento da sociedade."

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Taxa das blusinhas

Em 2023, o governo criou o programa Remessa Conforme, que passou a cobrar imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50. Até então, essas compras estavam isentas para empresas. A medida ficou conhecida como "taxa das blusinhas". Com a instituição do programa, a legislação brasileira passou a permitir que empresas de transportes façam o frete pelo Brasil de mercadorias internacionais, deixando de ser obrigatória a distribuição das encomendas junto aos Correios, como era feito anteriormente.

Essa mudança gerou um impacto significativo nas receitas dos Correios. Um estudo produzido pela empresa no início de 2025 apontou que a estatal teve um prejuízo de receita de R$ 2,2 bilhões após a implementação do programa.

Redução no volume de encomendas

Um documento interno dos Correios revela que o volume de encomendas internacionais transportadas caiu cerca de 110 milhões de objetos nos primeiros nove meses de 2025, em comparação com o mesmo período de 2024. Ao todo, a empresa transportou 149 milhões de pacotes até setembro de 2024, contra apenas 41 milhões de encomendas no mesmo período do ano passado.

Com a difusão das compras por meio de marketplaces internacionais nos últimos anos, a receita com encomendas estrangeiras, que já chegou a representar quase 25% de todo o faturamento da empresa, agora representa apenas 8,8%. Em julho de 2024, a empresa transportou 21 milhões de pacotes e teve uma receita de R$ 449 milhões, contra 3 milhões de encomendas e R$ 87 milhões em receita em setembro passado — a menor quantidade em 23 meses.

Ciclo vicioso de prejuízo

Essa frustração de receitas gerou um "ciclo vicioso de prejuízos" nos últimos anos, admitido pelos próprios Correios. A diretora Loiane de Carvalho Bezerra de Macedo afirmou: "Formou-se, assim, um ciclo vicioso de perda de clientes e receitas, decorrente da baixa qualidade operacional, que reduziu progressivamente a geração de caixa necessária para regularizar as obrigações dos Correios."

Segundo o documento, o agravamento da performance operacional foi o principal responsável pelos prejuízos recorrentes registrados pela empresa nos últimos trimestres. "As negociações com grandes clientes — responsáveis por mais de 50% da receita de vendas — tornaram-se cada vez mais sensíveis, comprometendo acordos e frustrando expectativas de resultado", completou.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar