Plantão da Globo: 35 anos da vinheta icônica que quase não foi ao ar
Plantão da Globo: 35 anos da vinheta icônica

A icônica vinheta do Plantão da Globo, que completa 35 anos nesta quinta-feira (21), é um dos sons mais reconhecidos da televisão brasileira. Poucos sabem, porém, que essa marca sonora quase não foi ao ar. Na época, o jornalismo da emissora buscava uma identidade única para anunciar notícias urgentes e interromper a programação regular.

A criação da trilha

A pedido de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, o maestro carioca João Nabuco, então com 25 anos, compôs a música em um único dia, em seu estúdio caseiro, sem qualquer referência visual. “Gravei todos os instrumentos. Peguei o sintetizador, a bateria eletrônica, fiz uma porção de samplers, misturei tudo e fiz sozinho ali”, relembra Nabuco. O resultado, no entanto, não foi consenso. O designer da Globo Mauro Borja Lopes, o Borjalo, argumentou que a combinação da trilha com a imagem dos microfones girando era “assustadora demais”. “Ele dizia: ‘Parece que o mundo vai acabar, não pode ser assim. Quando tocar, vou sair correndo para longe da televisão, em vez de correr para ver’”, recorda Boni, que aprovou a trilha de imediato e descartou as outras opções.

Inspiração no rádio

A referência de Boni veio da infância, nos anos 1940, quando ouvia no rádio as notícias da Segunda Guerra Mundial. “Com 7 ou 8 anos, eu frequentava o rádio, porque meu pai tocava. Eu tinha paixão por uma coisa chamada 'Repórter Esso'. Em qualquer lugar que eu estivesse, se ouvisse aquela música, saía correndo para ouvir as informações sobre a guerra. A música me perseguiu a vida toda”, lembra. “Pensei: ‘Quando eu estiver na televisão, preciso encontrar uma música desse tipo’.” No início dos anos 1990, Boni unificou os boletins extraordinários, que antes tinham identidades fragmentadas. Ele lançou um concurso interno entre os maestros da emissora para criar uma trilha com o mesmo impacto do antigo “Repórter Esso”. João Nabuco venceu, e Boni considera a criação superior à referência original.

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Identidade visual

Com a música pronta, Boni a entregou ao designer Hans Donner para criar a identidade visual. A missão era traduzir em imagens a urgência da trilha, fazendo o espectador “sentir o tempo parar”. A solução foi conceitual: microfones girando ao redor do planeta. “O microfone é o símbolo da voz, da notícia. Colocá-los orbitando o globo era transformar a informação em movimento, em energia que circula pelo mundo. Era a metáfora perfeita: o planeta envolto pela comunicação”, explica Donner. A vinheta também possui um detalhe técnico: uma “coreografia invisível”, com ritmo de rotação e intervalos de luz calculados para gerar tensão sem perder a elegância.

O criador que quase virou notícia

Hans Donner quase viveu a urgência do Plantão. Em 1997, ele sobreviveu a um grave acidente aéreo no Rio de Janeiro. O avião bimotor em que estava com a esposa, a modelo Valéria Valenssa, a Globeleza, caiu na Baía de Guanabara, perto do Aeroporto Santos Dumont. Após a queda, a aeronave flutuou tempo suficiente para que todos os cinco ocupantes saíssem com vida. Naquela noite, o Jornal Nacional exibiu uma reportagem sobre o acidente, mas, como o desfecho foi positivo, a vinheta do Plantão não foi necessária.

Como o Plantão vai ao ar?

Ao contrário do que muitos imaginam, o Plantão não é acionado por um “botão vermelho” de pânico. A decisão de interromper a programação é da chefia de jornalismo, e o comando final parte da sala de Controle de Programação, no Rio de Janeiro. Um operador seleciona a vinheta em um programa de computador e a coloca no ar com um clique. “É um botão verde que fica vermelho quando é acionado”, explica João Ramos, gerente de programação regional da Globo em São Paulo. A operação conta com um plano de segurança: a sede em São Paulo funciona como contingência, podendo acionar o Plantão em todo o Brasil se houver problemas no Rio. Atualmente, a vinheta é usada exclusivamente para notícias de impacto nacional; casos locais são informados em boletins regionais.

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E se fosse criada hoje?

A vinheta permanece quase intocada há 35 anos, mas os criadores têm opiniões divergentes sobre uma possível atualização. João Nabuco já cogitou uma regravação “mais nobre” com tecnologia atual, mas admite o risco: “Aquela coisinha que eu fiz com meus sintetizadores tem um sabor. Talvez, se regravasse, perderia a identidade. Regravações são traiçoeiras.” Boni pensa na velocidade do consumo de mídia e sugere uma versão resumida de 5 segundos. Hans Donner repensaria a forma, focando em “luz, pulsação, vibração”, mas mantendo a duração. “O mundo mudou, mas a essência continua: provocar no espectador a certeza de que o instante é único e irrepetível.”

Uma trilha cobiçada e popular

A força da vinheta despertou interesse até de uma emissora concorrente. João Nabuco recebeu uma proposta para licenciar a música, mas recusou: “Não dá, porque virou uma coisa da Rede Globo. Acho que não pode, não pode brincar com isso.” Na internet, a trilha ganhou vida própria, sendo usada em memes, toques de celular e até no carro da pamonha. Nabuco celebra: “É a prova de que o Plantão da Globo se tornou parte da cultura popular brasileira.”