SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Usuários de crack circulam constantemente por cerca de 260 pontos no distrito de Santa Cecília e arredores, na região central de São Paulo. O vaivém, provocado por abordagens policiais frequentes, cria um revezamento de permanência em turnos, fazendo com que um mesmo endereço tenha flutuações de zero a dezenas de usuários em poucos dias ou até horas.
Dispersão após um ano do esvaziamento
Um ano após o fim da última grande concentração na rua dos Protestantes, que reunia mais de mil pessoas até maio de 2025, a área agora registra uma média de 214 dependentes químicos por período (madrugada, manhã, tarde e noite), conforme contagem oficial realizada entre 20 e 23 de abril. Grandes aglomerações são exceções. O relatório do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) aponta que a maioria dos registros é de usuários solitários ou em duplas, com média inferior a um por ponto.
Praça Marechal Deodoro: principal ponto de concentração
A praça Marechal Deodoro é o principal foco, com média de 22 usuários por turno no número 43. O pico foi de 35 pessoas em 21 de abril, mas dois dias depois não havia ninguém no local. Os registros mostram deslocamentos dentro do mesmo logradouro: na praça, foram observados indivíduos ou grupos em dez pontos diferentes. A concentração média em todos os pontos da praça sobe para 29 por período, com presença quase ininterrupta.
O segundo maior ponto é a avenida Rio Branco, 940, com média de 12,5 usuários por período. Nos 26 pontos monitorados na via, a média geral é de 24, ligeiramente superior à de um único endereço da praça Marechal Deodoro. Outros pontos de destaque são a praça Princesa Isabel, 75 (dez), a rua Apa, 83 (nove), e a avenida Duque de Caxias, 75 (sete).
Percepções divergentes e estratégia do governo
Os dados explicam as percepções distintas de moradores: enquanto alguns celebram a ausência do fluxo em áreas antes críticas, outros reclamam da presença momentânea em suas portas. O vice-governador Felício Ramuth (MDB), coordenador das ações na cracolândia, afirma que o deslocamento contínuo faz parte da estratégia de monitoramento que desmobilizou a cena aberta de uso há um ano. O estado e a prefeitura usam drones e câmeras para contagem diária e identificação de pontos de venda. Policiais militares e guardas-civis realizam revistas, e as imagens podem servir como prova para prisões em flagrante.
Assistentes sociais abordam usuários nas ruas para incentivá-los a buscar tratamento no Hub de Cuidados em Crack e outras Drogas, no Bom Retiro, que oferece primeiros atendimentos e encaminhamento para hospitais ou comunidades terapêuticas.
Críticas e próximos passos
Críticos afirmam que a cracolândia foi atomizada, dividindo-se em pequenos grupos que se espalham pelo centro e outras regiões. O governo contesta, argumentando que a cracolândia acabou, pois traficantes não têm mais um território livre para atuar. Ramuth admite que o consumo de crack nas ruas ainda é um problema em outras áreas da capital e do estado. Os próximos passos incluem aplicar a experiência adquirida na Santa Cecília, República e Bom Retiro em outras regiões, como a Ceagesp (zona oeste) e a avenida Roberto Marinho (zona sul).



