RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Bruno Garcia, 55, não esconde o entusiasmo ao falar sobre a terceira temporada de "Os Outros", disponível no Globoplay. Fã assumido da série desde os primeiros episódios, o ator resume a experiência como a realização de um desejo antigo: "Estou vivendo aquele sonho de criança, quando você vê um filme e tem vontade de entrar". "Eu entrei", diz.
O convite, segundo ele, veio cercado de suspense. Mesmo sem saber detalhes sobre a trama, aceitou. "Eu nem sabia o que era o personagem, não sabia da trama, nada", conta. A empolgação só aumentou ao perceber que Manoel, o enigmático dono de um pequeno comércio local, seria um dos trabalhos mais desafiadores de sua carreira. Descrito por ele como denso, o personagem exigiu um trabalho aprofundado de composição. "O Manoel são vários. Ele tem muitas facetas, é um cara muito complexo", avalia.
Ambientação rural e reflexões
A ambientação da nova temporada, no campo, também trouxe reflexões. Embora reconheça o apelo da natureza, Garcia relativiza a ideia romantizada da vida rural. "Existe um mito de que o campo é só tranquilidade, mas não é bem assim", afirma. Ele cita desafios práticos, como problemas de infraestrutura, clima e até a presença de animais, como elementos que ajudam a construir um cenário realista –e tenso– para a narrativa. Essa complexidade do ambiente dialoga diretamente com os conflitos da série, que seguem explorando os limites das relações humanas.
Para o ator, a mudança de cenário amplia as possibilidades dramáticas sem perder a essência do projeto. "O ambiente muda, mas as questões continuam muito próximas da nossa realidade", diz. A convivência entre vizinhos, a falta de diálogo e a escalada de conflitos seguem no centro da narrativa. "'Os Outros' fala sobre intolerância de um jeito muito direto. É algo que a gente reconhece no dia a dia", afirma o ator. "A série não oferece respostas fáceis. Ela incomoda – e talvez seja por isso que funcione tão bem."
Relação com o personagem
Ao falar sobre a relação pessoal com o personagem, Garcia reforça a distância entre os dois. "Tirando o físico e as emoções que eu empresto, o Manoel é completamente diferente de mim", explica. Para o ator, esse tipo de papel é justamente o que torna o processo mais interessante. "São os mais divertidos de fazer, porque te obrigam a ir a lugares que você não acessa na vida."
Mesmo diante das tensões que marcam a trama, o ator faz questão de esclarecer, com bom humor, que seu personagem não é vilão de todo (ou ao menos não dos que fazem de tudo para alcançar seus objetivos). "Ele não é um assassino", adianta, rindo. Ao longo dos episódios, Garcia conta que seu personagem passa por transformações importantes, refletindo justamente esse ambiente de tensão constante. "Manoel é atravessado por situações extremas, e isso revela camadas que talvez nem ele mesmo conhecesse", comenta.



