Quase 40 anos depois: como estão os locais do acidente com Césio-137 em Goiânia
Locais do acidente com Césio-137 em Goiânia quase 40 anos depois

Quase 40 anos depois: como estão os locais do acidente com Césio-137 em Goiânia

Quase quatro décadas após o maior acidente radiológico da história do Brasil, os locais atingidos pelo Césio-137 em Goiânia passaram por profundas transformações ao longo dos anos, mas ainda preservam vestígios físicos e simbólicos da tragédia que marcou permanentemente a história do país. O tema voltou a ganhar repercussão nacional após o lançamento de uma série sobre o caso e com conteúdos publicados nas redes sociais, como o da comunicadora Isa Bosco, que percorreu pontos importantes do acidente e mostrou como esses espaços estão atualmente.

Do hospital abandonado ao Centro de Convenções

O acidente teve início em 13 de setembro de 1987, quando dois catadores retiraram um aparelho de radioterapia de uma clínica abandonada, o antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR). Hoje, esse mesmo local abriga o moderno Centro de Convenções de Goiânia. Apesar da completa mudança na estrutura física, o espaço continua sendo reconhecido como o ponto inicial da tragédia que se desenrolaria nas semanas seguintes.

Após a retirada do equipamento, o material foi levado para um ferro-velho no Setor Aeroporto, onde a cápsula contendo o Césio-137 foi aberta e o conteúdo radioativo começou a se espalhar de forma descontrolada. A área passou por intervenções radicais para conter a radiação, com uso extensivo de concreto e isolamento completo do solo contaminado. Mesmo com todas as mudanças estruturais, o local ainda é lembrado como o ponto central da contaminação que afetou milhares de pessoas.

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Em vídeo publicado recentemente nas redes sociais, Isa Bosco descreveu o impacto emocional de revisitar o espaço quase quatro décadas depois. "A história não se apaga. Aqui teve famílias, teve pessoas", afirmou a comunicadora, destacando como as marcas do passado permanecem presentes mesmo na paisagem transformada.

Locais de triagem e tratamento que seguem ativos

Durante o ápice do acidente, o Estádio Olímpico — que hoje funciona como Centro de Excelência do Esporte — foi utilizado como base principal de triagem para a população potencialmente exposta. Mais de 100 mil pessoas passaram pelo local para realizar exames e monitoramento de contaminação radioativa.

O Hospital Geral de Goiânia (HGG) também teve papel fundamental no atendimento emergencial às vítimas, com a criação de uma ala específica dedicada exclusivamente aos radioacidentados. Atualmente, a unidade hospitalar segue em pleno funcionamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mantendo sua importância para a população goianiense.

O destino final do material contaminado

Todos os materiais recolhidos durante o extenso processo de descontaminação — incluindo objetos pessoais, veículos e estruturas inteiras de edificações — foram transportados para Abadia de Goiás, onde se localiza o depósito oficial da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). O local abriga os rejeitos radioativos em estruturas especialmente projetadas para segurança, cobertas por múltiplas camadas de concreto, brita e solo, e segue sob monitoramento constante e rigoroso.

Segundo especialistas e pesquisadores da área, mesmo com a redução gradual da radiação ao longo das décadas, os riscos associados aos resíduos só devem desaparecer completamente após aproximadamente 200 anos. Atualmente, o Centro de Assistência aos Radioacidentados (Cara), ligado diretamente à Secretaria Estadual de Saúde, continua prestando atendimento médico especializado tanto para vítimas diretas quanto para indiretas do trágico acidente.

Relembrando a tragédia que chocou o Brasil

O acidente começou quando o equipamento de radioterapia foi desmontado de forma inadequada e partes do material radioativo foram distribuídas entre diversas pessoas que desconheciam completamente os riscos envolvidos. Encantadas com o brilho azul característico do pó radioativo, algumas vítimas chegaram a levar fragmentos para suas próprias residências, o que ampliou exponencialmente a contaminação inicial.

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Ao todo, quatro pessoas morreram em decorrência direta da exposição à radiação. A identificação do risco só ocorreu após Maria Gabriela Ferreira suspeitar da relação entre o objeto misterioso e os sintomas graves apresentados por familiares e vizinhos. Ela faleceu semanas depois, assim como a menina Leide das Neves, de apenas 6 anos de idade, que se tornou uma das vítimas mais conhecidas e simbólicas de todo o caso.

Quase 40 anos depois, os locais atingidos pelo Césio-137 em Goiânia testemunham tanto a capacidade de transformação urbana quanto a permanência da memória coletiva sobre uma das maiores tragédias radiológicas da história mundial.