Fórmula 1 retorna a Xangai com paradoxo chinês em evidência
A Fórmula 1 desembarca neste fim de semana no circuito internacional de Xangai para a segunda etapa da temporada, que marca a estreia do novo regulamento da categoria. A mudança ampliou significativamente a eletrificação dos motores híbridos, investindo justamente em uma área onde a China é líder global. Contudo, ironicamente, o país asiático segue quase completamente ausente do grid da competição.
Presença limitada apesar de milhões de fãs
Embora a China conte com uma base impressionante de mais de 220 milhões de fãs de F1 e tenha registrado o maior crescimento de público em 2025, com aumento de 39%, sua presença na categoria se resume praticamente à corrida disputada em Xangai desde 2004. Neste ano, a prova está marcada para as 4h da madrugada de domingo, horário de Brasília. Não existem no Mundial equipes, pilotos ou fabricantes de motores chineses.
Ao longo da história, a bandeira chinesa só foi vista no grid durante três temporadas, de 2022 a 2024, quando Guanyu Zhou se tornou o primeiro piloto chinês a correr na categoria. Com 68 etapas disputadas, seu melhor resultado foi o oitavo lugar, alcançado nas provas do Canadá em 2022 e do Qatar em 2024.
Política governamental como principal obstáculo
Mas não se trata apenas de uma questão de talento individual. A ausência chinesa no circuito mundial reflete a política definida pelo governo chinês, conforme observa o pesquisador Simon Chadwick, especialista em geopolítica econômica do esporte. "O engajamento das corporações chinesas com o esporte não é uma decisão que elas tomam unilateralmente, tudo é ditado pelo governo central", explicou o britânico.
Editor fundador do GeoSport, uma plataforma digital de esportes criada em parceria com o Instituto Francês de Assuntos Internacionais e Estratégicos, Chadwick afirmou não acreditar que esse cenário possa mudar em um futuro próximo. "Autoridades em Pequim divulgaram recentemente o mais recente plano comunista quinquenal do país, no qual não há menção específica à F1, portanto, não devemos esperar a iminente aparição de uma equipe chinesa no esporte", detalhou o especialista.
Interesse da BYD e barreiras financeiras
De acordo com a Bloomberg, no entanto, a fabricante chinesa BYD demonstrou interesse nos últimos meses em se juntar à categoria. Com o aumento da importância da parte elétrica dos motores híbridos dos carros da F1, a gigante chinesa estuda trilhar o mesmo caminho feito por General Motors e o grupo Volkswagen, atraídas pela eletrificação dos monopostos.
A BYD poderia se juntar à competição como uma nova equipe, como fez a montadora americana por meio da marca Cadillac, ou comprar uma escuderia do grid atual, como os alemães fizeram ao transformar a Sauber em Audi. Além das estratégias definidas pelo governo chinês, o principal obstáculo analisado pela empresa é o custo de cerca de US$ 500 milhões por ano para manter uma equipe, sem falar nas longas negociações para a aceitação por parte das equipes que compõem a F1.
Visão da FIA e contexto histórico-cultural
A entrada de uma fabricante da China é vista com bons olhos por Mohammed ben Sulayem, presidente da FIA (Federação Internacional de Automobilismo). Em entrevista ao jornal francês Le Figaro, no ano passado, o dirigente demonstrou empolgação com a possibilidade. "Foi meu sonho nos últimos dois anos que os grandes países tivessem uma presença na F1. Os Estados Unidos estarão com a General Motors. O próximo passo é dar as boas-vindas a uma montadora chinesa", declarou.
Para o professor Shaowei He, especialista em internacionalização de empresas chinesas da Universidade de Northampton, na Inglaterra, o contraste também passa por fatores históricos e culturais. "A F1 surgiu há 76 anos no Reino Unido e muitas famílias têm gerações de envolvimento consistente com o esporte, enquanto a cultura do automobilismo na China ainda está por surgir", afirmou.
Contraste com os Estados Unidos e hegemonia ocidental
A relação dos chineses com a principal categoria do automobilismo mundial contrasta com a de seu principal concorrente estratégico, os Estados Unidos. Os americanos ampliaram sua presença na F1 nos últimos anos, com três corridas no calendário e, sobretudo, com o controle comercial da categoria após a compra pelo grupo Liberty Media.
A competição de raízes europeias também conseguiu ampliar sua presença no mercado americano a partir do sucesso da série Drive to Survive, da Netflix, atualmente em sua oitava temporada, que mostra os bastidores das equipes e os conflitos entre os pilotos.
Segundo He, a distância em relação ao centro tradicional da indústria também pesa. "Até mesmo alguns executivos chineses do setor automobilístico não têm uma compreensão básica do 'vale do automobilismo' do Reino Unido", disse, referindo-se ao polo de engenharia onde se concentram várias equipes da categoria.
Chadwick acrescenta: "A F1 e o automobilismo em geral são dominados por uma hegemonia ocidental. Equipes, pilotos, expertise em engenharia, design de circuitos e governança continuam sendo dominados pelo Ocidente, apesar da crescente influência dos países do Golfo. As relações EUA-China, sanções e barreiras socioculturais à entrada servem como barreiras para equipes da China e da Ásia".
A China é hoje o maior mercado automotivo do mundo e líder global em veículos elétricos. Em 2024, o país respondeu por cerca de dois terços das vendas globais do setor, segundo a IEA, a Agência Internacional de Energia. Ainda assim, sua presença na F1 atual, com mais ênfase na eletrificação, permanece basicamente indireta, limitada a patrocínios e parcerias tecnológicas, sendo a prova em Xangai sua única ligação direta com as disputas nas pistas.



