Tragédia em piscina de academia: marido narra morte da esposa por intoxicação com gás tóxico
O programa Fantástico deste domingo (15) trouxe novos detalhes sobre o caso que chocou São Paulo: a morte de uma mulher por intoxicação durante uma aula de natação em uma academia da capital paulista. Em depoimento exclusivo gravado na UTI, Vinícius de Oliveira, de 31 anos, reconstituiu os momentos de terror que viveu ao lado da esposa Juliana Bassetto, de 27 anos, vítima fatal do incidente.
"Sentindo o peito ardendo": o relato do sobrevivente
"A gente estava nadando já fazia uns 15 minutos. E aí acho que foi o momento em que a mistura foi feita", recorda Vinícius, visivelmente emocionado. "Eu lembro que eu estava na raia da direita e já encostei na parede sufocando, sentindo o peito ardendo."
O casal participava de uma aula de natação na academia C4 Gym quando ocorreu a liberação de um gás tóxico na área da piscina. A reação imediata de Vinícius foi tentar buscar ajuda, mas ao perceber que Juliana passava pela mesma situação, ele retornou para auxiliá-la.
"Minha reação foi sair da piscina e pedir socorro. Só que aí eu olhei pra trás e a Ju estava tendo a mesma reação que eu. Aí eu voltei para ajudar ela. A gente conseguiu subir ela e evacuou ela da piscina", descreve o marido.
Falhas catastróficas na manutenção
A investigação revelou que a manutenção da piscina era realizada de maneira completamente irregular. O responsável pelas operações não era um profissional qualificado, mas sim o manobrista do estabelecimento, Severino José da Silva.
Segundo a advogada de Severino, Bárbara Bonvicini, o proprietário da academia, Celso Bertolo Cruz, orientava o funcionário por mensagens de aplicativo, baseando-se no "olhômetro". Todos os dias pela manhã, Severino media a água e enviava uma foto do medidor para Celso, que então indicava quais produtos e quantidades deveriam ser utilizados.
A ciência por trás da tragédia
Especialistas do Instituto de Química da USP demonstraram que a mistura incorreta de três substâncias foi responsável pela liberação do gás cloro, altamente tóxico:
- Hipoclorito de cálcio
- Dicloro isocianurato
- Ácido para regular pH
O cloro, ao entrar em contato com as mucosas humanas, causa irritação grave nas vias aéreas e pulmões. Em grande volume, como ocorreu em um balde durante a manutenção, a reação libera quantidade suficiente de gás para causar intoxicação severa.
Investigação em andamento e responsabilidades
Os três sócios da academia — Cesar Bertolo Cruz, Celso Bertolo Cruz e Cezar Miquelof Terração — recusaram-se a dar entrevistas. Seus advogados emitiram nota afirmando que os clientes permanecem à disposição das autoridades, confiando que a investigação prosseguirá de forma técnica e isenta.
Na sexta-feira, a Justiça negou a prisão temporária dos empresários, pedida pela Polílica Civil. A polícia investiga o caso sob a perspectiva de negligência e exposição de frequentadores a gases tóxico.
"A legislação prevê que eles têm que ter um registro, com anotação, disponível para qualquer cliente, consumidor, aluno, com as medições do nível de pH, do nível de cloro, do nível de acidez da água, isso não existe", afirma o delegado Alexandre Bento. "Eles assumiram completamente o risco de expor as pessoas ao contato com gases tóxicos e o resultado, infelizmente, foi a morte da Juliana."
Desfecho trágico e recuperação dos sobreviventes
Enquanto Juliana não resistiu às consequências da intoxicação, outros afetados pelo incidente seguem em recuperação. Um adolescente de 14 anos, que também estava na piscina e chegou a ser internado em estado grave, recebeu alta na sexta-feira.
Vinícius, após passar mal no hospital, conseguiu sair da UTI e receber alta neste domingo (15). Em suas palavras finais, um apelo por mudanças: "Espero que as coisas sejam feitas da forma correta nas piscinas. Que seja fiscalizado. Porque o que foi feito não pode se repetir."
O caso continua sob investigação da Polícia Civil, que busca determinar as responsabilidades pela tragédia que tirou a vida de uma jovem durante uma atividade de lazer que deveria ser segura.