Academia C4 Gym é interditada após morte de professora por intoxicação em piscina
A tragédia ocorreu no último sábado (7) na unidade do Parque São Lucas, Zona Leste de São Paulo, e expõe graves falhas na manutenção do espaço aquático. Juliana Faustino Bassetto, uma professora de 27 anos, perdeu a vida após sofrer problemas respiratórios agudos decorrentes do uso da piscina. Seu marido, Vinícius de Oliveira, também participava da aula de natação e encontra-se internado em estado grave, necessitando de entubação.
Histórico de problemas na piscina desde abril
Mães de alunos que frequentavam a academia revelaram que a piscina já apresentava irregularidades há meses. Fabiana Borges, mãe de uma ex-aluna, relatou que sua filha teve crises intensas de tosse após as aulas, com episódios em que o maiô da criança desbotou completamente pelo contato com a água. "Teve um dia que o cheiro estava insuportável, parecendo meio ácido. Até o professor comentou que estava estranho", afirmou Fabiana, que chegou a registrar uma reclamação formal na administração da C4 Gym.
Outra mãe, Ionice Lucindo, precisou retirar o filho das aulas porque a bronquiolite do menino piorava significativamente durante as atividades na piscina. "Ele tossia, tossia e vomitava. Era um cheiro muito forte que penetrava e dava alergia", desabafou. Ionice ainda destacou que a academia não devolveu o valor do plano anual após o cancelamento das aulas.
Investigação policial aponta negligência grave
O delegado Alexandre Bento, titular do 42° Distrito Policial, está à frente das investigações e revelou detalhes alarmantes. Segundo ele, a suspeita principal é de que houve uma mistura inadequada de produtos químicos para limpeza da piscina, gerando gases tóxicos que intoxicaram os frequentadores. "Esse gás provocou asfixia, queimaduras nas vias aéreas e bolhas no pulmão das vítimas", explicou o delegado.
A polícia enfrenta dificuldades porque a academia não colaborou com as investigações inicialmente. "Não houve colaboração nenhuma da empresa. Tivemos que arrombar o local para fazer a perícia", afirmou Bento. O funcionário suspeito de fazer a mistura dos produtos, um manobrista, ainda não foi localizado pelas autoridades.
Academia operava irregularmente e foi interditada
A Subprefeitura Vila Prudente interditou preventivamente a C4 Gym após constatar várias irregularidades. O estabelecimento não possuía Auto de Licença de Funcionamento, tinha dois CNPJs diferentes vinculados ao mesmo endereço e apresentava condições precárias de segurança. A Vigilância Sanitária também determinou o fechamento do local.
Além de Juliana e Vinícius, outras três pessoas foram afetadas pela intoxicação. Um adolescente de 14 anos está hospitalizado na UTI, enquanto duas outras vítimas receberam atendimento médico e já tiveram alta.
Família exige justiça e revela detalhes trágicos
O pai de Juliana, Ângelo Augusto Bassetto, está profundamente abalado e fez um emocionado apelo por justiça. "Essa justiça deve ser feita para não acontecer com mais ninguém. Pelo que fiquei sabendo, usaram ozônio, que é muito forte dependendo da quantidade", disse ele entre lágrimas.
Ângelo contou que a médica que atendeu sua filha no hospital relatou que o produto químico queimou internamente os pulmões da jovem, causando acúmulo de água no órgão. Vinícius, o marido de Juliana, conseguiu perceber o problema imediatamente ao pular na piscina, mas não teve tempo de alertar a esposa antes que ela também entrasse na água.
Academia se pronuncia e fecha unidades
Em nota oficial, a C4 Gym lamentou o ocorrido e afirmou que prestou atendimento imediato a todos os envolvidos. A empresa disse estar conduzindo uma apuração interna rigorosa e colaborando com as autoridades. "Em sinal de respeito e luto, as unidades próprias na cidade de São Paulo permanecerão fechadas nesta segunda-feira (9)", comunicou a academia.
Entretanto, a versão da empresa contrasta com os relatos das mães e com as constatações das autoridades. Fabiana Borges revelou que a administração da unidade admitiu em e-mail que tratava a água com ozônio e uma quantidade mínima de cloro, mas que teve problemas técnicos com a máquina de ozônio.
Contexto pessoal das vítimas
Juliana e Vinícius eram um casal jovem com planos promissores. Eles haviam se casado em dezembro de 2024, acabado de comprar um apartamento e sonhavam em ter filhos. Juliana era apaixonada por ioga e fazia parte de uma comunidade espírita. O casal frequentava aulas de natação na academia há quase um ano, como parte de sua rotina de cuidados com a saúde.
O velório de Juliana foi realizado nesta segunda-feira (9) no Velório Avelino, no Jardim Avelino, com sepultamento no Cemitério Quarta Parada. A família e amigos se despedem da professora enquanto aguardam respostas sobre as circunstâncias que levaram a essa tragédia evitável.



