BRF acerta com MPT remanejamento de gestantes após 77 abortos em unidade barulhenta
BRF remaneja gestantes após 77 abortos em fábrica barulhenta

Multinacional alimentícia BRF acerta remanejamento de gestantes após investigação revelar 77 abortos em fábrica barulhenta

A multinacional do setor alimentício BRF firmou acordo com o Ministério Público do Trabalho (MPT) para remanejar trabalhadoras grávidas que atuam em áreas com ruído elevado na unidade de Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso. A decisão ocorreu após investigação do órgão apontar intercorrências na gestação de funcionárias expostas a ambientes barulhentos, incluindo 77 abortos confirmados e 113 partos prematuros registrados entre 2019 e 2025.

Impactos do ruído industrial na saúde das gestantes

Segundo a procuradora do Trabalho Priscila Dibi Schvarcz, responsável pelo processo, os efeitos chamados "extrauditivos" da exposição a ruídos elevados podem atingir o sistema cardiovascular e metabólico das gestantes. O acordo, homologado pela Justiça, determina que a empresa deve transferir as gestantes para setores com níveis de ruído abaixo de 80 decibéis enquanto a ação civil pública movida pelo MPT estiver em andamento.

O remanejamento não significa afastamento do trabalho. As funcionárias continuarão exercendo atividades, mas em áreas consideradas adequadas para a gestação. A empresa também se comprometeu a reforçar medidas de prevenção e garantir atendimento imediato em casos de urgência médica dentro da unidade.

Caso que desencadeou a investigação

A investigação começou após um caso registrado em abril de 2024 envolvendo uma funcionária venezuelana, grávida de oito meses de gêmeas, que sofreu aborto espontâneo na portaria da empresa. Segundo o MPT, ela passou mal durante o expediente, foi levada a uma sala de descanso e não houve acionamento imediato de atendimento médico. Após o episódio, a trabalhadora processou a empresa e foi indenizada.

A partir desse caso, o Ministério Público ampliou a apuração para verificar se havia problemas estruturais nas condições oferecidas às gestantes. Foram avaliados documentos de saúde ocupacional e segurança do trabalho apresentados pela própria empresa.

Dados alarmantes revelados pela investigação

Com base nesse material, o MPT identificou 144 registros de aborto ou ameaça de aborto, dos quais 77 foram confirmados. Também foram registrados 113 casos de parto prematuro. Além disso, o levantamento apontou 71 atestados médicos com diagnósticos como:

  • Hipertensão gestacional
  • Pré-eclâmpsia
  • Diabetes gestacional
  • Restrição de crescimento fetal

Para o MPT, essas condições podem ser agravadas pela exposição a níveis elevados de ruído. De acordo com o Laudo Técnico das Condições Ambientais do Trabalho, existem 23 setores na unidade com níveis abaixo de 80 decibéis, demonstrando que é possível transferir as gestantes sem prejuízo à operação.

Condições de trabalho na unidade de Lucas do Rio Verde

Mesmo com essa possibilidade, a investigação apontou que trabalhadoras grávidas atuavam em áreas com ruído que pode chegar a 93 decibéis. Quando a ação foi apresentada, apenas três gestantes estavam em setores considerados adequados. A unidade de Lucas do Rio Verde emprega cerca de 4.800 pessoas, sendo que 74 são gestantes, o equivalente a aproximadamente 1,5% do quadro.

Para o MPT, esse percentual não compromete a organização do trabalho em caso de remanejamento. Antes de ingressar com a ação, o MPT realizou duas audiências com a empresa, mas não houve acordo naquele momento. Com a homologação judicial, o remanejamento passa a ser obrigatório.

Posicionamento da BRF e medidas adicionais

Procurada, a BRF afirmou que cumpre a legislação de saúde e segurança do trabalho e fornece equipamentos de proteção auditiva certificados. A empresa informou ainda que mantém um programa de acompanhamento às gestantes, que já atendeu mais de 13 mil colaboradoras desde 2017.

De acordo com o MPT, porém, o protetor auricular protege a trabalhadora, mas não elimina possíveis impactos ao feto. A empresa também contestou os dados apresentados pelo MPT, afirmando que não reconhece as informações à exceção do número atual de gestantes, e que não foi identificada correlação entre os casos citados no processo e as atividades desempenhadas.

Além das medidas já definidas, o MPT pede o pagamento de R$ 20 milhões por danos morais coletivos, pedido que ainda será analisado pela Justiça. A BRF, dona de marcas como Sadia e Perdigão, tem receita anual combinada de cerca de R$ 150 bilhões e presença em mais de 100 países, sendo uma das maiores empresas de alimentos do mundo.