Navio africano passa quase dois meses à deriva antes de resgate histórico da Marinha brasileira
Um navio-tanque africano que estava à deriva em alto-mar por quase dois meses foi finalmente resgatado nesta sexta-feira, 27 de março, após uma complexa operação coordenada pela Marinha do Brasil. A embarcação atracou com segurança no Porto de Fortaleza, no Ceará, encerrando um período de incerteza e risco para seus 11 tripulantes.
Falha técnica deixa navio à mercê das correntes oceânicas
O NW AIDARA, navio registrado em Togo, começou sua deriva involuntária no dia 5 de fevereiro, quando uma mangueira hidráulica rompeu durante sua viagem. O acidente causou um significativo vazamento de óleo hidráulico e danificou gravemente a engrenagem de acionamento do leme, comprometendo completamente o controle de direção da embarcação.
"O problema deixou o navio sem capacidade de manobra, deslocando-se continuamente à mercê das correntes marítimas", explicou a Marinha em comunicado oficial divulgado nesta segunda-feira, 30 de março.
Comunicação limitada e escassez de suprimentos agravam situação
A situação a bordo tornou-se progressivamente mais crítica com o passar das semanas. A embarcação enfrentou:
- Escassez de alimentos e água potável
- Falhas no sistema de comunicação por satélite
- Limitações no rádio High Frequency
- Comunicação restrita ao sistema VHF, dependente de navios próximos
O Capitão de Fragata Marcos Moreira Bezerra, encarregado da seção de Operações do Comando do 3º Distrito Naval, destacou: "O Serviço de Busca e Salvamento tem como objetivo prioritário resgatar a vida que se encontra em risco no mar. Adicionalmente, é relevante salvar a embarcação para que sua condição de deriva não comprometa a segurança da navegação".
Operação internacional de resgate mobiliza recursos brasileiros
A Marinha do Brasil recebeu a primeira notificação sobre o navio em dificuldades no dia 25 de fevereiro, quando ainda estava fora da área de jurisdição brasileira, sob responsabilidade de Dakar. A embarcação encontrava-se em um trecho oceânico entre a costa do Nordeste brasileiro e a África Ocidental.
Quando o NW AIDARA finalmente entrou na área de responsabilidade do Salvamar Nordeste - aproximadamente 675 milhas náuticas (1.250 quilômetros) da costa brasileira - o Serviço de Busca e Salvamento brasileiro foi imediatamente acionado.
Tentativas frustradas de reparo e aproximação do perigo
No dia 1º de março, o Navio Mercante YK NEWPORT aproximou-se do navio à deriva por orientação da Marinha, estabelecendo comunicação e realizando atendimento via telemedicina para avaliar o estado de saúde da tripulação. Nesse momento, os marinheiros informaram que estavam bem e que tentariam fabricar uma nova engrenagem de acionamento a bordo para concluir os reparos por conta própria.
O comandante do navio avariado prometeu entrar em contato com o Brasil para solicitar assistência caso não conseguissem concluir o reparo até 8 de março. No entanto, o problema não foi solucionado e nenhum contato subsequente foi estabelecido.
A situação tornou-se cada vez mais preocupante conforme o navio derivava em direção ao nordeste brasileiro, com riscos reais de encalhe, perigo à vida humana e potencial impacto ambiental considerando a natureza da carga transportada por um navio-tanque.
Operação final envolve múltiplas embarcações da Marinha
No dia 9 de março, a Marinha do Brasil iniciou a fase decisiva da operação:
- O Navio-Patrulha Oceânico Araguari foi enviado para interceptar o navio africano
- A Corveta Caboclo partiu de Salvador (BA) com destino a Fortaleza (CE)
- O Navio Rebocador de Alto-Mar Triunfo desatracou do porto de Natal (RN)
Após estabelecer comunicação e avaliar o estado da tripulação, o Triunfo finalmente resgatou o navio estrangeiro e o conduziu com segurança até o Porto de Fortaleza.
O Vice-Almirante Jorge José de Moraes Rulff, Comandante do 3º Distrito Naval, refletiu sobre o sucesso da missão: "As ações referentes às atividades de Busca e Salvamento desenvolvidas pela Marinha do Brasil resultaram no salvamento do navio, na manutenção da segurança da navegação e na prevenção da poluição hídrica. Porém, o êxito no cumprimento da missão reside na integridade física e psicológica dessas 11 vidas que poderão, em breve, voltar para os seus lares".
A operação, que durou várias semanas e envolveu coordenação entre o Comando do 3º Distrito Naval em Natal e a Capitania dos Portos do Ceará com a comunidade marítima local, demonstrou a capacidade de resposta da Marinha brasileira em situações de emergência internacional no mar.



