Justiça argentina julga se naufrágio do submarino ARA San Juan foi tragédia evitável
Julgamento na Argentina analisa tragédia evitável do submarino ARA San Juan

Justiça argentina inicia julgamento histórico sobre naufrágio do submarino ARA San Juan

A Justiça da Argentina iniciou nesta terça-feira (3) um julgamento crucial para determinar se o naufrágio do submarino ARA San Juan, que resultou na morte de 44 membros da Marinha em 2017, constituiu uma tragédia previsível e evitável. O processo ocorre em Río Gallegos, capital da província de Santa Cruz, localizada a aproximadamente 2.500 quilômetros ao sul de Buenos Aires.

Acusação sustenta que desastre era evitável

O Ministério Público e o assistente da acusação apresentaram a tese de que não se tratou de um acidente fortuito, mas sim de um desfecho que poderia ter sido previsto, considerando o estado precário da embarcação. "Vamos provar que foram mortes evitáveis, eles foram enviados para a morte", declarou a advogada Valeria Carreras, representante de 34 familiares das vítimas, ao adentrar o tribunal.

Relatórios técnicos indicaram que o prazo recomendado para reparos havia sido excedido em 26 meses, e que a deterioração do submarino significou um aumento significativo do risco para a integridade física da tripulação. Os destroços do ARA San Juan permanecem a mais de 900 metros de profundidade e a 500 quilômetros da costa de Santa Cruz, onde foram localizados um ano após seu desaparecimento.

Contexto do naufrágio e busca internacional

O submarino havia partido em missão de patrulha do porto de Ushuaia, no extremo sul argentino, e retornava à base naval de Mar del Plata quando desapareceu. Em 15 de novembro de 2017, a embarcação enviou sua última mensagem, reportando uma falha elétrica e o princípio de um incêndio. A busca pelos 44 tripulantes mobilizou esforços de dezenas de países e manteve em suspense tanto a sociedade argentina quanto o governo do então presidente Mauricio Macri.

Na entrada do tribunal, uma bandeira argentina exibe os rostos das 44 vítimas com a inscrição "honra e glória aos nossos heróis em patrulha eterna". O símbolo foi colocado de forma anônima e representa a única alusão visível ao caso na cidade, descrita como desolada e indiferente ao processo judicial.

Famílias ausentes e sensação de abandono

Nenhum familiar das vítimas – 43 homens e uma mulher – esteve presente na abertura do julgamento, que foi transmitida via YouTube. A advogada Carreras explicou à AFP que as famílias não possuem recursos financeiros para custear deslocamento e hospedagem. "São pessoas sem poder, dinheiro ou sobrenome; sentiram-se 'ninguém' nestes oito anos", afirmou, destacando a importância da visibilidade do caso para combater o esquecimento e a impunidade.

Os quatro ex-oficiais da Marinha acusados enfrentam penas que variam de um a cinco anos de prisão por descumprimento de obrigações, omissão e negligência qualificada. Eles comparecem ao julgamento em liberdade e incluem o ex-chefe do Comando de Treinamento Luis López Mazzeo, o ex-comandante da Força Submarina Claudio Villamide, o ex-chefe do Estado-Maior do Comando Submarino Héctor Alonso e o ex-chefe de Operações Hugo Correa.

Controvérsias sobre local do julgamento e investigações

A Justiça rejeitou um pedido para que o julgamento fosse realizado em Mar del Plata, cidade onde residiam a maioria dos tripulantes e três dos quatro acusados. O advogado Luis Tagliapietra, que perdeu o filho Alejandro no acidente, criticou a decisão: "Levando o debate para Río Gallegos, tão distante de Buenos Aires, buscam invisibilizar a tragédia".

Familiares denunciaram ainda terem sido vítimas de espionagem durante as buscas – caso que envolveu o ex-presidente Macri e foi encerrado pela Suprema Corte em 2025. "Este é o primeiro processo; a investigação sobre os demais responsáveis na linha de comando, que chega até Macri, ainda não foi concluída", acrescentou Tagliapietra.

Desafios probatórios e hipóteses técnicas

As audiências ocorrerão durante quatro dias consecutivos, com intervalos semanais. A hipótese principal sugere que uma falha na válvula permitiu a entrada de água no compartimento das baterias, desencadeando um incêndio e posterior explosão. No entanto, comprovar essa teoria exigiria a recuperação dos destroços – uma operação de custo milionário.

"É muito difícil condenar alguém por um crime quando não se sabe realmente o que aconteceu. O julgamento pode terminar em absolvição", ponderou Tagliapietra. A advogada Carreras acredita que mais de 90 testemunhas devem apresentar provas durante o processo, o que pode alterar o curso das investigações.

Em 2021, um Conselho de Guerra já havia destituído Villamide por negligência e aplicado punições de até 45 dias de detenção a outros oficiais. Agora, a Justiça comum tem a tarefa de determinar se a tragédia do ARA San Juan poderia ter sido evitada com medidas adequadas de manutenção e segurança.