As exportações brasileiras para países do Golfo Pérsico registraram queda expressiva em março, impactadas pelos desdobramentos do conflito no Irã e pelas restrições à navegação no Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas para o comércio global. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), compilados na plataforma ComexStat, indicam que as vendas para a região somaram US$ 537,1 milhões no mês, uma retração de 31,47% na comparação com março de 2024.
Principais mercados afetados
O Golfo Pérsico concentra parceiros comerciais relevantes para o Brasil, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait, Omã e Bahrein. A pauta exportadora para esses países é fortemente dominada por produtos do agronegócio, que correspondem a cerca de 75% do total embarcado. A interrupção parcial do transporte marítimo prejudicou especialmente itens que dependem de embarques regulares e em grande escala.
Queda acentuada em grãos e açúcar
O milho praticamente deixou de ser exportado para a região em março. As vendas de açúcar e melaços também sofreram forte redução. Grãos como trigo e centeio não registraram embarques relevantes ao Golfo Pérsico no período. A tabela abaixo detalha o desempenho dos principais produtos.
Causas logísticas e geopolíticas
A principal razão para o declínio está na logística. Com o aumento do risco na região, companhias de navegação passaram a cobrar taxas extras e a adotar rotas alternativas, muitas vezes contornando o continente africano para evitar a passagem pelo Estreito de Ormuz. Esses desvios elevam o tempo de viagem e os custos de transporte. Para analistas do mercado financeiro, o conflito no Irã evidencia como fatores políticos passaram a influenciar diretamente o comércio de commodities. “A geopolítica voltou a ditar regras no fluxo global de mercadorias”, afirma Pedro Ros, CEO da Referência Capital. Segundo ele, tensões internacionais podem alterar rotas logísticas, pressionar custos de seguro e aumentar a volatilidade de preços, exigindo maior planejamento das empresas exportadoras.
Carnes e commodities mantêm demanda
Apesar da queda geral, alguns produtos continuaram com demanda aquecida e ajudaram a sustentar o fluxo comercial com o Golfo Pérsico. As carnes permanecem como um dos principais pilares da pauta brasileira. O frango lidera as exportações para a região, tanto em 2025 quanto no início deste ano. A carne bovina também mostrou resiliência, com avanço no valor exportado, impulsionado principalmente pela alta dos preços internacionais, e não pelo aumento do volume embarcado.
Fertilizantes: importação cresce mais de 265%
A relação comercial entre Brasil e Golfo não se limita às exportações. O país depende de insumos vindos da região, especialmente fertilizantes nitrogenados, essenciais para a produção agrícola. Omã, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos estão entre os principais fornecedores. Diante das incertezas sobre a duração do conflito e as dificuldades no transporte marítimo, empresas brasileiras anteciparam compras para garantir estoques. Em março, as importações de fertilizantes nitrogenados desses países cresceram mais de 265%, segundo o MDIC.



