Crise no transporte público de Rio Branco: empresa alega prejuízo milionário e defende nova licitação
O sistema de transporte coletivo de Rio Branco, capital do Acre, enfrenta uma crise profunda desde 2020, com usuários diariamente submetidos a ônibus superlotados, veículos com constantes falhas mecânicas e longos tempos de espera. Em entrevista exclusiva à Rede Amazônica Acre, o proprietário da Ricco Transportes e Turismo, Ewerson Dias, revelou que a empresa acumula prejuízos financeiros significativos e defende a abertura urgente de uma nova licitação para reorganizar o serviço.
Prejuízos acumulados e operação deficitária
Segundo Ewerson Dias, a Ricco Transportes registrou um prejuízo de aproximadamente R$ 7 milhões em 2024, e esse valor subiu para pouco mais de R$ 8 milhões em 2025. Esses números, conforme o empresário, serão formalmente apresentados na declaração de imposto de renda da companhia. "Se considerarmos o que recebemos e o que gastamos, os números são alarmantes e insustentáveis a longo prazo", afirmou Dias.
A empresa opera atualmente cerca de 50 linhas de ônibus na capital acreana, com uma frota aproximada de 100 veículos. No entanto, muitas dessas rotas apresentam baixa demanda de passageiros, o que impacta diretamente a viabilidade financeira do serviço. "Existem linhas que transportam apenas 1.800 passageiros por mês, um volume que não cobre os custos operacionais", explicou o proprietário.
Contexto contratual e subsídios municipais
A Ricco Transportes atua no transporte público de Rio Branco há quatro anos, sempre por meio de contratos emergenciais renovados a cada seis meses. A empresa assumiu 31 das 42 linhas existentes em fevereiro de 2022, após a Empresa Auto Aviação Floresta abandonar as rotas. O contrato mais recente foi renovado em 20 de fevereiro, estendendo a operação por mais seis meses.
Para auxiliar na manutenção do serviço, a Prefeitura de Rio Branco repassa um subsídio à empresa. Atualmente, o município paga R$ 3,63 por passageiro transportado, permitindo que a tarifa para os usuários se mantenha em R$ 3,50. Um dos grandes desafios citados pelo empresário é o alto número de gratuidades e benefícios no sistema: quase metade dos passageiros utiliza algum tipo de isenção ou meia-passagem estudantil, onde estudantes pagam apenas R$ 1.
Reclamações dos usuários e situação crítica
Enquanto a empresa enfrenta dificuldades financeiras, a população que depende do transporte público relata uma situação cada vez mais precária. A assistente escolar Eremita Gadelha descreve a experiência como "péssima", destacando que os ônibus frequentemente apresentam defeitos e as viagens são marcadas por longas demoras. "Já aconteceu de o ônibus parar no meio do caminho, obrigando os passageiros a buscar alternativas como aplicativos de transporte ou esperar por outro veículo", contou.
O autônomo Cleildon Henrique, que precisou usar o sistema recentemente, afirma que a situação piorou sensivelmente. "A vida de quem depende do ônibus está mais sofrida. Sempre houve problemas, mas ultimamente em Rio Branco está bem mais difícil", disse. Para quem mora em bairros com frota reduzida ou em zonas rurais da capital, como a Transacreana, a espera pode chegar a 45 minutos ou mais, conforme relatou o carpinteiro Francisco Nascimento.
Futuro incerto e necessidade de investimentos
Ewerson Dias argumenta que novos investimentos na frota e na infraestrutura dependem diretamente da definição de quem irá operar o transporte público a longo prazo. "Atualmente temos mais de R$ 40 milhões investidos. Ninguém vai adquirir 100 ônibus novos, algo que custaria cerca de R$ 95 milhões, sem saber se continuará operando", explicou. A empresa chegou a solicitar uma audiência pública para a última sexta-feira (6), mas o proprietário não compareceu devido a problemas de saúde, resultando no cancelamento da sessão.
O prefeito de Rio Branco, Tião Bocalom, deve anunciar nesta segunda-feira (9) o lançamento do Edital de Concorrência Pública nº 005/2026, que visa a concessão e operacionalização do transporte coletivo da cidade. Enquanto isso, o g1 aguarda retorno da Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito (RBTrans) para mais esclarecimentos sobre o futuro do sistema.



