Time de futebol de várzea corre risco de despejo após concessão do Campo de Marte
Time de várzea ameaçado de despejo no Campo de Marte

Justiça de São Paulo derruba liminar e autoriza despejo do Grêmio Cruz da Esperança

A Justiça de São Paulo revogou a liminar que suspendia a desocupação da sede do Grêmio Esportivo e Recreativo Cruz da Esperança, localizada no Campo de Marte, Zona Norte da capital. Com isso, a reintegração de posse da área de aproximadamente 15 mil metros quadrados, ocupada pelo time de futebol de várzea, pode prosseguir. A nova decisão, proferida na quinta-feira (14) pela juíza Tamara Priscila Tocci, da 11ª Vara da Fazenda Pública, reconsiderou a liminar concedida no dia 8 e restabeleceu a ordem anterior de desocupação determinada pela 9ª Vara da Fazenda Pública.

Dessa forma, volta a valer a decisão que fixou, em 26 de março, um prazo de 60 dias para a saída voluntária do clube do terreno. Caso não ocorra a desocupação dentro desse período, o despejo poderá ser realizado com o uso de força policial. Em nota oficial, a Prefeitura de São Paulo afirmou que está autorizada a retomar a área pública ocupada de forma irregular pelo clube e que dará continuidade ao projeto do futuro Parque Municipal Campo de Marte. O complexo de lazer será implementado pela iniciativa privada, que assinou um contrato de concessão de 35 anos com o município no ano passado.

Projeto do parque exige desocupação total da área

Segundo a prefeitura, o espaço precisa estar completamente desocupado para ser repassado à concessionária responsável pelo projeto, que prevê investimentos de cerca de R$ 202 milhões. O Consórcio Cântaro, formado pelo mesmo grupo empresarial da Allegra Pacaembu, que administra o estádio municipal, é o responsável pela concessão. O Cruz da Esperança vinha alertando, nos últimos meses, que a saída colocaria em risco não apenas a prática do futebol, mas também as atividades culturais realizadas no local, como o tradicional Samba do Cruz, que ocorre aos fins de semana e é uma importante fonte de renda para a agremiação.

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A concessionária chegou a propor um acordo para que o clube saísse voluntariamente, mas o modelo garantia apenas o uso do campo de futebol, colocando em risco a principal fonte de renda da agremiação, que depende das atividades culturais para se manter financeiramente.

Conflito de decisões judiciais levou à derrubada da liminar

Na decisão, a juíza apontou que havia duas ordens judiciais conflitantes sobre o mesmo terreno: uma determinando a desocupação e outra proibindo qualquer medida de remoção. Segundo a magistrada, esse cenário criava grave insegurança jurídica, já que o cumprimento de uma decisão implicaria descumprimento da outra. Após análise dos documentos apresentados pela prefeitura, a juíza concluiu que a ação de reintegração de posse foi protocolada primeiro, em 20 de março, enquanto o processo movido pelo clube foi distribuído no dia seguinte. Com isso, a 9ª Vara foi considerada o juízo responsável por conduzir o caso.

A decisão também destaca que a nova análise levou em conta documentos técnicos já existentes, como planta e memorial descritivo da área, que delimitam com precisão o terreno objeto da disputa – um dos pontos que haviam motivado a concessão da liminar ao clube. Há uma semana, o Cruz da Esperança havia conseguido suspender temporariamente o despejo ao convencer a Justiça de que não havia comprovação clara de que sua sede estava incluída nas áreas afetadas pelo futuro parque. Na ocasião, a liminar também levou em conta a ocupação histórica do território pelo clube, fundado em 1958 por taxistas negros da região, e a relevância social e cultural das atividades realizadas no local.

Reduto do futebol de várzea

O Campo de Marte foi um dos principais redutos do futebol de várzea da cidade, abrigando seis campos de futebol amador e as sedes de seus clubes desde a década de 1970. As atividades eram mantidas com autorização da Aeronáutica, que detinha a posse do terreno ao lado do aeroporto de mesmo nome. Desde o início do ano, porém, um dos times já foi removido e outros quatro aceitaram acordos para desocupação voluntária, com a promessa de uso futuro do espaço.

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Em 2022, um acordo entre a Prefeitura de São Paulo e a União resolveu um impasse judicial que se arrastava desde a década de 1950 e transferiu parte do terreno ao município, abrindo caminho para a concessão. Pelo acerto, firmado após décadas de litígio, a gestão municipal teve uma dívida de R$ 25 bilhões com o governo federal extinta, enquanto a Aeronáutica manteve a maior parte da área do aeroporto e a prefeitura passou a ter a posse de cerca de 400 mil metros quadrados. Diante da ameaça de despejo, o Cruz da Esperança lançou um abaixo-assinado pedindo o reconhecimento como patrimônio cultural da cidade. Até esta sexta-feira (15), o documento tinha 26 mil assinaturas virtuais.