Brasil normaliza mortes no trânsito: especialista defende Sistema Seguro e Visão Zero
Mortes no trânsito: Brasil precisa de Sistema Seguro urgente

Brasil Normaliza Mortes no Trânsito: Especialista Aponta Falhas Sistêmicas e Propõe Soluções

Todo ano, com a chegada das férias, o Brasil repete um ritual que deveria envergonhar a sociedade: estradas cheias, pressa, consumo de álcool e ultrapassagens perigosas resultam em um rastro de mortes. É como se tivéssemos normalizado a ideia de que viajar nessa época implica aceitar o risco de não voltar. No entanto, segundo análise do Centro de Estudos das Cidades — Laboratório Arq.Futuro do Insper, essa não é uma fatalidade, mas sim uma falha de políticas públicas mal desenhadas.

Números Chocantes e a Pandemia do Trânsito

Os dados recentes confirmam uma situação alarmante. Em 2025, o estado de São Paulo registrou 475 motociclistas mortos e 410 pedestres vítimas do trânsito, totalizando mais de 2,5 mortes por dia nesses grupos. O número total de óbitos chegou a 6.109, quase 20 por dia. Quando somamos os feridos graves, os números se tornam ainda mais assustadores, devendo assombrar os responsáveis pela gestão do trânsito.

Essa tragédia, que explode principalmente em períodos de férias e feriados, é apenas a face mais visível de um fenômeno permanente. O Brasil ainda trata a violência no trânsito como algo inevitável, quando, na realidade, ela é em grande parte previsível e evitável. A primeira mudança necessária é abandonar a explicação confortável de que o problema se resolve com apelos à prudência individual.

Do Comportamento Individual ao Sistema Seguro

Sim, existem escolhas individuais irresponsáveis, como excesso de velocidade e direção sob efeito de álcool. No entanto, o ponto central é outro: por que o sistema permite que essas escolhas matem? Pessoas erram, sempre erraram e sempre errarão. A pergunta civilizatória é: por que um erro termina em funeral? A resposta não está na moral individual, mas no desenho do risco. Um país que depende da perfeição humana para não matar está condenado a contar mortos.

É exatamente aí que entra o conceito de Sistema Seguro, base da Visão Zero, adotada por nações e cidades que decidiram tratar mortes no trânsito como inaceitáveis. A premissa é simples e poderosa: nenhuma morte é normal. A responsabilidade principal de evitar fatalidades não recai apenas sobre o usuário, mas sobre o conjunto de regras, fiscalização, infraestrutura, desenho urbano, veículos e gestão pública que moldam o risco.

Velocidade: O Grande Multiplicador de Mortes

O Sistema Seguro parte de um fato físico frequentemente ignorado: o corpo humano tem limites. Acima de certa velocidade, não há atenção nem habilidade que compense, tornando o impacto devastador. Por isso, a velocidade é o grande multiplicador de mortes, tanto nas rodovias quanto nas ruas dos bairros.

Segurança viária séria começa com gestão de velocidade de verdade: limites coerentes com o tipo de via, fiscalização constante e previsível, e combate efetivo ao excesso. Quando a fiscalização é intermitente, o motorista não se adapta à norma; ele aprende a jogar com a chance de ser pego.

Medidas Concretas para Rodovias e Cidades

Nas rodovias, um Sistema Seguro atua com medidas concretas:

  • Segregação central em áreas de alto risco de colisão frontal
  • Correção de traçado e tratamento de pontos críticos
  • Terceira faixa em trechos de aclive
  • Acostamentos adequados e sinalização de alto padrão
  • Tecnologia para monitoramento e gestão do tráfego

Contudo, seria um erro limitar a discussão às estradas. A mesma lógica vale — e talvez seja ainda mais urgente — para as cidades brasileiras, onde a violência do trânsito é cotidiana e atinge de maneira brutal os mais vulneráveis, como pedestres e motociclistas.

O Sistema Seguro aplicado ao ambiente urbano significa redesenhar vias para reduzir conflitos:

  1. Ruas completas com travessias seguras e calçadas adequadas
  2. Faixas elevadas, ilhas de refúgio e ciclovias protegidas
  3. Iluminação e fiscalização inteligente
  4. Zonas de velocidade reduzida em áreas sensíveis como escolas e hospitais

Regulação Veicular e Governança

Outra frente essencial é a regulação da segurança dos veículos, especialmente quanto ao dever de proteger os vulneráveis. O limite de velocidade nas vias públicas brasileiras não pode exceder 120 quilômetros por hora, mas autoriza-se a circulação de carros que ultrapassam facilmente 200 km/h. Limitar a velocidade dos carros é algo simples de fazer, bastando parametrizar o software de controle dos motores.

Além disso, segurança viária exige governança: metas públicas de redução de mortes e feridos graves, transparência de dados, responsabilização de gestores e integração entre trânsito, saúde, educação e transporte. Um sistema seguro não nasce de uma campanha; nasce de um plano com recursos, cronograma, prioridades e métricas.

Conclusão: É Hora de Mudar o Sistema

O Brasil precisa decidir se continuará aceitando férias e feriados com balanço de guerra e dias comuns com mortes invisíveis. A Visão Zero não é um slogan nem uma utopia escandinava; é uma forma racional de governar riscos, priorizando a vida acima da conveniência e da velocidade. O próximo fim de ano já está marcado no calendário. A pergunta é se as autoridades seguirão contando mortos — ou, finalmente, mudarão o sistema para que o luto deixe de fazer parte do deslocamento.