Região de Itapetininga zera feminicídios no 1º trimestre de 2026
Itapetininga zera feminicídios no 1º trimestre

A região de Itapetininga, no interior de São Paulo, atingiu uma marca expressiva no primeiro trimestre de 2026: nenhum caso de feminicídio foi registrado. Os dados, divulgados pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) por meio da plataforma SP Vida, mostram uma redução em comparação ao mesmo período de 2025, quando ocorreram dois feminicídios. As tentativas de feminicídio, no entanto, mantiveram-se estáveis, com três casos em cada ano.

Casos de 2025: detalhes dos crimes

Os dois feminicídios de 2025 ocorreram nos municípios de Itapeva e Itapetininga, vitimando mulheres de 38 e 28 anos. Em ambos os casos, os suspeitos eram companheiros das vítimas e foram presos pela Polícia Civil.

O primeiro crime aconteceu em 4 de janeiro de 2025. Lisandra Aparecida da Silva, de 38 anos, foi encontrada morta em estado de decomposição dentro de sua casa, no bairro Taquari, em Itapeva. A polícia apurou que o casal, que mantinha um relacionamento de 20 anos, havia discutido no dia anterior. O suspeito, Allan Queiroz Garcia, foi preso seis meses após o crime.

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O segundo caso ocorreu exatamente dois meses depois, em 4 de março de 2025. Natália Stéfanny Alves Carneiro Domingues, de 28 anos, foi encontrada morta em seu quarto, em Itapetininga, com um cabo HDMI enrolado no pescoço. O suspeito, Emerson Vitoriano Pereira, confessou o crime. O casal estava junto desde 2016 e tinha uma filha de cinco anos. A família relatou que a vítima tentava se separar havia um ano, sem sucesso.

Análise de especialista: "ponta visível de um iceberg"

A advogada especializada em direito penal Juliana Saraiva avalia que os dados ainda são preocupantes, especialmente em cidades com menor população. "O raciocínio precisa ser proporcional à população. Quando falamos em indicadores de violência, usamos a taxa por 100 mil habitantes, não o número absoluto. A taxa pode ser proporcionalmente muito superior à da capital. Três casos em uma região pequena não é estatística, é tragédia", pontua.

Segundo a especialista, o feminicídio representa "a ponta visível de um iceberg". Ela explica que municípios do interior convivem com uma cultura de silêncio em relação à violência, já que as pessoas se conhecem mais, o que pode dificultar denúncias. "Para cada mulher morta, há dezenas que sofreram agressões anteriores que denunciaram ou, mais frequentemente, não denunciaram. Em cidades pequenas, esse sub-registro é ainda mais acentuado, porque a vítima conhece todo mundo, o agressor também, e o silêncio é culturalmente imposto pelo próprio ambiente", detalha.

Juliana também ressalta que a estabilidade nos índices não significa, necessariamente, maior efetividade da segurança pública. "É necessário saber o que está por trás deste número. Se o platô vem acompanhado de mais mulheres denunciando, mais homens processados e condenados, e mais medidas deferidas, aí, sim, é sinal de política pública funcionando. Se, ao contrário, o número estabiliza quando os registros de ocorrências caem, as delegacias estão com efetivo reduzido e as mulheres continuam sem acesso à rede de proteção, é silêncio forçado", diz.

Desafios no interior

Outro ponto destacado pela advogada é a diferença no acesso aos recursos de proteção para mulheres vítimas de violência no interior em comparação às capitais. "Na capital, há uma rede mais densa: Delegacias de Defesa da Mulher com funcionamento ampliado, casas-abrigo, atendimento psicossocial, Ministério Público e Defensoria Pública com equipes especializadas. No interior, essa rede é naturalmente mais enxuta. Não por descaso, mas por uma limitação estrutural e orçamentária que afeta municípios pequenos de todo o Brasil", completa.

Para combater a discrepância social, Juliana defende a revisão de valores desde a educação básica. "A violência doméstica começa com uma cultura que naturaliza a desigualdade: que ensina ao menino que ele manda e à menina que ela obedece. Que trata o ciúme como prova de amor. Enquanto não enfrentarmos isso na raiz, continuaremos tratando o sintoma e, não, a doença. Defendo com convicção que a prevenção precisa entrar na escola como valor transversal", opina.

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Ações imediatas

A advogada também sugere ações imediatas, como o fortalecimento do Conselho Tutelar e das redes de assistência social municipais. "Em cidade pequena, a mulher, muitas vezes, chega primeiro à assistente social, ao posto de saúde ou à escola dos filhos, não à delegacia. O programa Sinal Vermelho e a capacitação dos profissionais de segurança pública para notificar situações de risco já existem, mas poucas cidades do interior implementaram de fato", lamenta.

Ela ainda destaca que o descumprimento de medida protetiva é crime autônomo, com pena de detenção de três meses a dois anos. "Muitos desconhecem isso. A informação, por si só, já é fator de proteção. A medida protetiva não é papel mágico, precisa de estrutura real por trás", finaliza.

Atendimento na região

De acordo com a Polícia Civil, atualmente há cinco unidades da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) e nove Salas da DDM na região de Itapetininga. Confira os endereços:

  • DDM Avaré: Av. Salim Antônio Curiati, 1630 - Jardim Brasil
  • DDM Itapetininga: R. Higino Rolim Rosa, 81 - Vila Rosa
  • DDM Tatuí: Travessa Amaro Padilha, 10 - Jardim São Paulo
  • DDM Itapeva: R. Everaldo Milton Chiavani, 173 - Central Park
  • DDM Capão Bonito: Av. Gov. Lucas Nogueira Garcês, 376 - Jardim Cruzeiro
  • Sala DDM Avaré: R. Minas Gerais, 1315-1419 - Centro
  • Sala DDM Taquarituba: R. Mal. Floriano Peixoto, 938 - Centro
  • Sala DDM Laranjal Paulista: R. Dr. Pereira Barreto, 10 - Centro
  • Sala DDM Tietê: R. Marcos Marcuz, 655 - Centro
  • Sala DDM Boituva: R. Ver. Olimpio de Barros - Jardim Oreana
  • Sala DDM Itapetininga: R. Expedicionários Itapetiningano, 1093 - Centro
  • Sala DDM Itapeva: R. Capão Bonito, 375 - Vila Bom Jesus
  • Sala DDM Capão Bonito: R. Dr. Josino de Araújo, 750 - Centro
  • Sala DDM Itararé: R. Djalma Dutra, 328 - Bairro Velho

Caso recente em Avaré

Na terça-feira (5), uma mulher foi morta a tiros em Avaré (SP). O policial militar José Augusto de Andrade Paifer confessou o crime e foi preso. Segundo ele, os dois mantinham um relacionamento extraconjugal. A vítima foi identificada como Eurídice Augusta de Souza Michelin, de 57 anos. Como o caso é recente, a morte ainda não consta no painel da SSP-SP.

O policial militar disse que vinha sendo ameaçado por Eurídice. A arma usada no crime e uma pistola com numeração raspada foram encontradas na casa do suspeito. A Justiça determinou a prisão preventiva durante audiência de custódia na quarta-feira (6). Eurídice foi sepultada na quinta-feira (7), no Cemitério Parque Memorial Pôr-do-Sol, em Avaré. Ela deixa os pais e três filhos.