CEO do Hinge analisa solidão da Geração Z e estratégia no Brasil
Geração Z mais sozinha, diz CEO do Hinge sobre app de relacionamento

CEO do Hinge analisa solidão da Geração Z e estratégia de expansão no Brasil

Em um cenário marcado pela exaustão digital e superficialidade nos aplicativos de namoro, o Hinge se destaca com uma proposta diferente. Jackie Jantos, CEO da plataforma que carrega o slogan "feito para ser deletado", aborda a crise do setor, a solidão enfrentada pela Geração Z e os planos da empresa para conquistar o mercado brasileiro. Em entrevista exclusiva durante recente passagem por São Paulo, a executiva compartilhou insights valiosos sobre o futuro dos relacionamentos mediados por tecnologia.

A crise dos aplicativos e o foco na Geração Z

Jackie Jantos não hesita em afirmar que a categoria de apps de relacionamento vive uma crise real. O problema fundamental, segundo ela, é que muitos produtos disponíveis não acompanharam as transformações na forma como as pessoas, especialmente os jovens, vivem e iniciam relacionamentos. Há quatro anos, quando assumiu a liderança do Hinge, a empresa realizou um pivô estratégico para focar especificamente na Geração Z.

"Observamos como eles vivenciam identidade de gênero, fluidez nos relacionamentos e o pouco tempo que passam presencialmente", explica Jantos. "Precisamos orientar a tecnologia pelas necessidades desse público em constante evolução." A escolha por focar nessa geração não é aleatória: a executiva acredita que, ao atender às demandas da Geração Z, o app cria uma experiência mais aberta e inclusiva para todos os usuários.

Solidão e desafios da nova geração

Um dos pontos mais preocupantes destacados pela CEO é o isolamento enfrentado pelos jovens. A Geração Z se sente mais sozinha do que qualquer geração anterior, com menos experiência presencial e barreiras reais para conhecer pessoas sem a mediação de dispositivos. Jantos descreve a situação como fascinante e, ao mesmo tempo, alarmante.

"Eles enfrentam desafios agudos: sentem-se mais isolados e sozinhos que qualquer geração anterior", afirma. "Têm menos experiência presencial e enfrentam barreiras reais para conhecer pessoas sem a mediação de dispositivos." Esse contexto de solidão e dificuldade de conexão autêntica motivou o Hinge a desenvolver uma abordagem diferente dos demais apps do mercado.

Filosofia "feito para ser deletado" e métricas de sucesso

Diferente de plataformas que priorizam o engajamento contínuo, o Hinge adota uma filosofia peculiar: seu objetivo principal é fazer com que os usuários saiam em encontros reais e, eventualmente, deletem o aplicativo. Toda a experiência do usuário é projetada para facilitar conexões significativas que levem a encontros presenciais.

"Somos o app 'feito para ser deletado'. Nosso objetivo é fazer você sair em um encontro", destaca Jantos. "Essa é nossa filosofia de design e marca." A métrica principal da empresa são os "bons encontros", e todo o processo - desde o cadastro até as mensagens - é orientado para esse resultado. A empresa inclusive envia pesquisas perguntando sobre a qualidade dos encontros, buscando feedback direto dos usuários.

O papel da Inteligência Artificial na experiência do usuário

A tecnologia de IA desempenha três funções cruciais no Hinge. Primeiro, no sistema de recomendação: o algoritmo analisa perfis ricos em informações para sugerir parceiros com maior probabilidade de compatibilidade. Segundo, em questões de confiança e segurança: a IA identifica mensagens potencialmente ofensivas e sugere revisões antes do envio.

"Se você escreve algo potencialmente ofensivo, a IA pergunta: 'Você tem certeza?'", explica Jantos. "A maioria reescreve — muitas vezes não há má intenção, apenas descuido." Terceiro, a inteligência artificial auxilia na orientação dentro do app, ajudando os usuários a se expressarem melhor e iniciarem conversas mais interessantes.

Expansão estratégica no mercado brasileiro

O Brasil representa uma oportunidade significativa para o Hinge. Com uma estimativa de cerca de 4 milhões de usuários potenciais da Geração Z buscando relacionamentos intencionais, o país se destaca como um dos maiores mercados da América Latina. Jantos observa que os jovens brasileiros enfrentam as mesmas questões globais de solidão e barreiras para encontros presenciais, agravadas pelos efeitos da pandemia.

"Mas há nuances locais: o Brasil tem a maior economia de criadores do mundo e uma dinâmica rica de relacionamentos", analisa a CEO. "É um mercado apaixonado, onde romance e relacionamento de longo prazo importam. Além disso, é um público LGBTQIA+ muito dinâmico, para o qual nosso produto foi desenhado."

Estratégia de marketing e cultura organizacional

Para conquistar o público brasileiro, o Hinge adota uma abordagem focada na economia de criadores. A empresa selecionou cerca de 50 criadores em São Paulo e Rio de Janeiro, priorizando profundidade e alinhamento de valores em vez de alcance massivo. Esses parceiros precisam estar genuinamente interessados em relacionamentos intencionais e, crucialmente, estar solteiros e buscando um relacionamento.

Jantos também destaca a cultura única do Hinge, onde menos de 400 funcionários compartilham o foco em ajudar usuários a terem ótimos encontros. "É a única organização onde a expressão externa da marca reflete perfeitamente a cultura interna e o produto", conclui a executiva, enfatizando o alinhamento especial e humano que caracteriza a empresa.