Etarismo na Saúde: Quando o Preconceito Contra Idosos Invade os Consultórios Médicos
Em novembro, este espaço completará uma década de existência, dedicando-se a pesquisas sobre o envelhecimento. Ao longo desses dez anos, não apenas acumulei conhecimento, mas também me tornei uma pessoa idosa, experiência que se soma aos valiosos relatos compartilhados por leitores e leitoras. A história de Rejane, que ilustra esta coluna, demonstra como o preconceito contra os mais velhos persiste de forma alarmante na sociedade.
O Relato Chocante de Rejane: Negativa de Exame Preventivo
"Tenho 63 anos e mantenho uma vida sexual ativa com meu marido", conta Rejane. "Marquei uma consulta de rotina com um ginecologista, sendo a primeira vez com esse profissional. Assim que entrei no consultório, ele afirmou imediatamente que eu não precisava do exame preventivo devido à minha idade."
Inconformada, Rejane buscou informações para verificar se o Papanicolau realmente não seria necessário. "É uma questão de saúde e segurança em qualquer idade", enfatiza. Naturalmente, ela decidiu trocar de médico, buscando um profissional mais acolhedor e informado.
O Papanicolau e Sua Importância Vital
O exame Papanicolau é fundamental na prevenção do câncer de colo de útero, pois detecta alterações celulares de maneira precoce. Pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a recomendação prioritária abrange mulheres entre 25 e 64 anos. Aquelas que nunca tiveram relações sexuais podem ser dispensadas, já que esse tipo de câncer está quase 100% associado ao vírus HPV, transmitido sexualmente.
O SUS orienta que a mulher pode interromper o exame ao completar 64 anos, desde que apresente um histórico recente de resultados normais. A regra para parar exige dois exames consecutivos com resultado negativo nos últimos cinco anos, além da ausência de histórico de lesões precursoras de câncer nos últimos 20 anos.
Importante: Se uma mulher chegar aos 64 anos sem nunca ter realizado o exame ou sem histórico comprovado, deve continuar repetindo até obter os dois resultados negativos consecutivos. No atendimento particular, o padrão é realizar o preventivo anualmente, independentemente da idade.
Outro Caso Alarmante: Preconceito Sobre Sexualidade na Maturidade
Um relato igualmente chocante envolve a prima de uma amiga, de 55 anos, que havia se separado do marido. Ela procurou um ginecologista para um check-up completo, rastreio de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e informações sobre a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição). A resposta do médico foi um retrato do preconceito: simplesmente disse para ela "sossegar o facho".
PrEP: Uma Ferramenta de Prevenção para Todos
Disponível no SUS desde 2017, a PrEP é um método eficiente de prevenir a infecção pelo vírus HIV. Consiste em dois antirretrovirais em um único comprimido diário, reduzindo drasticamente o risco de infecção em caso de exposição ao vírus. Quem opta pelo atendimento público tem direito a vacinas contra o HPV e as hepatites A e B.
Embora ainda seja vista majoritariamente como uma opção para homens que fazem sexo com outros homens, a PrEP é uma forma de praticar sexo seguro que serve para todas as pessoas, independentemente de idade ou orientação sexual.
Em julho de 2025, a Organização Mundial da Saúde recomendou o uso do lenacapavir, medicamento injetável aplicado a cada seis meses, como forma de prevenção ao HIV. Aprovado pela Anvisa e comercializado em 2025, ainda não está disponível no SUS devido ao alto custo.
Combater o Etarismo em Todas as Frentes
O pior do etarismo ocorre quando se manifesta dentro do consultório médico, um local que deveria ser de acolhimento e cuidado. Esses relatos ilustram como o preconceito contra os mais velhos pode comprometer seriamente a saúde e o bem-estar.
Moral da história: Procurem profissionais de saúde que sejam verdadeiramente acolhedores, informados e respeitosos com todas as idades. A luta contra o etarismo deve ser constante, especialmente em ambientes onde a saúde e a dignidade humana estão em jogo.



