A Superintendência de Vigilância em Saúde (SVS) do Amapá confirmou que o estado enfrenta um surto da doença de Chagas, com duas mortes já registradas e uma terceira em investigação. Além dos números alarmantes, especialistas esclarecem os mecanismos de transmissão dessa enfermidade, que vai muito além do consumo de açaí contaminado.
Transmissão oral é a principal via na Amazônia
No laboratório da Universidade Federal do Amapá (Unifap), pesquisadores mantêm uma coleção de barbeiros para estudos aprofundados. É nesses insetos que pode estar o parasita Trypanosoma cruzi, responsável pela doença de Chagas. O entomologista Raimundo Nonato Souto explica que a principal forma de transmissão na região amazônica é a oral.
"A transmissão mais evidente é a transmissão oral. Inclusive na Amazônia existe um trabalho muito interessante do professor Aldo Valente, do Instituto Evandro Chagas, que constatou que a transmissão na região é prevalentemente oral, principalmente através do açaí", afirma Souto.
Inseto silvestre que se adapta às áreas urbanas
Embora o barbeiro seja tradicionalmente um inseto de áreas rurais, os pesquisadores alertam que ele tem capacidade de se aproximar dos centros urbanos. "Em áreas urbanas, ele não é um inseto comum como os mosquitos. É silvestre, mas se adapta muito bem às habitações humanas, especialmente em locais próximos a áreas de mata", detalha Raimundo Souto.
É importante destacar que o barbeiro não transmite a doença diretamente pela picada. O risco real está no contato com as fezes do inseto infectado. "Na realidade, o veículo de transmissão é via fezes. A picada é apenas para ele se alimentar de sangue. O lugar que ele pica provoca coceira, a pessoa coça e leva as fezes para o local da picada, contaminando através dos vasos periféricos", esclarece o especialista.
Animais silvestres como reservatórios do parasita
Outra forma de contaminação ocorre quando os barbeiros se alimentam do sangue de animais já infectados. "Existem animais da fauna neotropical que servem de hospedeiros, como marsupiais e tatus. Uma vez infectados, permanecem assim para sempre. O barbeiro sadio se alimenta do sangue e acaba ingerindo a forma infectante", explica Raimundo Souto.
Além do açaí: outros alimentos de risco
A bolsista da Unifap Noemia do Carmo alerta que diversos alimentos podem servir como veículos de transmissão. "As pessoas costumam imaginar que somente o açaí é o principal alimento contaminado, mas também temos a bacaba, caldo de cana e frutas que, sem higienização correta, podem ser batidas junto com o alimento e contaminar a população", declarou.
Aumento preocupante de casos
Segundo dados da SVS, em março foram registrados 8 casos da doença no Amapá. Em 2026, o número já saltou para 20 confirmações, indicando uma tendência preocupante de crescimento.
A gerente do Centro de Informações Estratégicas, Solange Costa, reforça que medidas preventivas são fundamentais para conter o avanço da doença. "Nossa orientação é que as pessoas comprem o alimento em locais seguros, que adotem medidas higiênico-sanitárias. O branqueamento do açaí, processo que leva a polpa a altas temperaturas, é essencial para eliminar o protozoário e garantir consumo seguro", orientou.
Pesquisas em andamento na Unifap
Na Universidade Federal do Amapá, pesquisadores continuam estudando o inseto barbeiro e seus hábitos para melhor compreender a dinâmica de transmissão da doença de Chagas na região. Esses estudos são cruciais para o desenvolvimento de estratégias mais eficazes de prevenção e controle.
O surto no Amapá serve como alerta para toda a região amazônica, onde condições ambientais favorecem a proliferação do inseto transmissor e a transmissão oral através de alimentos regionais.



