Brasil tem cigarro mais barato da América Latina mesmo com aumento de imposto
Cigarro mais barato da América Latina mesmo com aumento

Brasil mantém cigarro entre os mais baratos da América Latina apesar de aumento

O governo federal anunciou um novo reajuste no preço mínimo do cigarro no país, que passará de R$ 6,50 para R$ 7,50 a partir de 2026. Contudo, mesmo com essa alta, o valor continua sendo considerado baixo por especialistas em saúde pública, que apontam o Brasil como detentor do terceiro menor preço para cigarros em toda a América do Sul.

Política de preços estagnada e retrocesso no combate ao tabagismo

Historicamente, o Brasil implementava uma política que previa aumentos anuais no preço mínimo do cigarro acima da inflação, estratégia comprovadamente eficaz para reduzir o número de fumantes. No entanto, entre 2017 e 2023, esses reajustes ficaram congelados em R$ 5, sendo ajustado apenas em 2024 para R$ 6,50. Se a política original tivesse sido mantida, especialistas estimam que o valor mínimo atual já estaria próximo de R$ 10.

"Estamos vivendo um cenário preocupante com o aumento do tabagismo no país. Se não revertermos isso, a nova geração vai adoecer e morrer no futuro", alerta André Szklo, pesquisador do Instituto Nacional de Câncer (Inca).

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Crescimento alarmante de fumantes após duas décadas de queda

Pela primeira vez em vinte anos, o número de fumantes no Brasil voltou a crescer. Dados preliminares do Ministério da Saúde indicam que a prevalência subiu de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024, representando um aumento de 25%. Esse retrocesso ocorre após um período de sucesso nas políticas antitabagistas, quando a proporção de fumantes caiu de mais de 30% na década de 1990 para cerca de 9% em 2015.

Segundo pesquisas do Inca, a principal responsável pela queda histórica foi justamente a política de impostos que elevou o preço do cigarro. Agora, com preços estagnados por quase uma década, o cenário se inverteu.

Impacto econômico devastador do tabagismo

Os custos do cigarro para a sociedade brasileira são astronômicos. O Sistema Único de Saúde (SUS) gasta aproximadamente R$ 98 bilhões anualmente no tratamento de doenças relacionadas ao tabagismo, enquanto a arrecadação de impostos sobre a indústria do fumo cobre apenas 5% dessas despesas.

De forma prática, para cada R$ 1 arrecadado com impostos sobre cigarros, o governo precisa gastar R$ 5 para tratar doenças e cobrir perdas de produtividade por incapacidade ou morte prematura causadas pelo tabagismo.

Um estudo recente do Inca revela que o custo total direto e indireto do tabagismo no Brasil chega a impressionantes R$ 153 bilhões por ano. O hábito está associado a mais de 50 tipos de doenças e causa aproximadamente 177 mil mortes anualmente no país.

Cigarro eletrônico como porta de entrada preocupante

A médica pneumologista Maria Enedina Scuarcialupi, coordenadora da Comissão de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, destaca um fenômeno preocupante: "Hoje, o fumo voltou a ser uma grande preocupação entre os jovens. Eles entram pelo cigarro eletrônico e depois, já viciados na nicotina, migram para o cigarro comum, que é mais barato".

Ela relata atender casos graves de EVALI (lesão pulmonar associada ao uso de produtos de cigarro eletrônico) em adolescentes, descrevendo-os como "jovens com doenças de idosos". Embora os cigarros eletrônicos sejam ilegais no Brasil, eles têm funcionado como uma perigosa porta de entrada para o tabagismo tradicional.

Posição preocupante no ranking sul-americano

De acordo com o último relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) publicado em 2025, com dados de 2024, o Brasil ocupa a terceira posição entre os países com os cigarros mais baratos da América do Sul. Mesmo com o aumento anunciado para 2026, o país deve manter essa posição, considerada arriscada pelos especialistas.

Apenas Colômbia, Peru e Uruguai implementaram alterações significativas em seus preços mínimos recentemente. Para os pesquisadores, o cenário brasileiro representa um "porto seguro" para o cigarro na região, facilitando o acesso e contribuindo para o aumento do consumo.

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Necessidade urgente de políticas mais efetivas

Especialistas defendem a retomada de uma política contínua de aumentos de preço acima da inflação. Há expectativa sobre a possível implementação do chamado "imposto do pecado" na nova reforma tributária, que estabeleceria tributos seletivos sobre produtos como o cigarro. No entanto, conforme proposto atualmente, o reajuste apenas acompanharia a inflação, sem o componente adicional necessário para desestimular o consumo.

"É preciso agir enquanto há tempo. O Brasil é referência nacional no controle do tabagismo e não podemos frear. A proposta precisa ser mais radical com relação ao cigarro", defende André Szklo.

Os dados são claros: sem uma política de preços mais agressiva, o Brasil continuará enfrentando os custos humanos e econômicos devastadores do tabagismo, com milhares de vidas perdidas prematuramente a cada ano.