A repetição calma de uma única palavra, dita com sotaque espanhol, tornou-se a âncora emocional que impediu que o pânico tomasse conta da psicóloga Sandra Mara Padilha nos instantes seguintes a um acidente de moto grave, que resultou na perda de uma de suas pernas. O relato emocionante faz parte da série especial “O Poder das Palavras”, exibida pela EPTV, afiliada da TV Globo, na 1ª Edição do Jornal da EPTV, com transmissão até o dia 3 de janeiro de 2026.
O acidente na estrada para Ushuaia
Sandra realizava um sonho comum entre motociclistas viajantes: percorrer a estrada até Ushuaia, no extremo sul da Argentina. Anos atrás, durante essa jornada, uma combinação fatal de fatores mudou sua vida para sempre. “Dois ventos, né? Um vento lateral e o vento do caminhão que estava passando. E ele me jogou na lateral do caminhão e eu já caí ali sem a perna”, conta ela, descrevendo o momento do impacto.
No chão, após a violência da colisão, o que mais marcou Sandra não foi apenas a dor física ou a gravidade visível dos ferimentos. Foi a voz de quem a socorreu. “A primeira palavra que eu ouvi foi ‘tranquilo’. ‘Tranquilo’ e ‘tranquila’... ‘Estamos contigo’. E ela segurava na minha mão”, lembra a psicóloga.
O poder de uma palavra repetida
Aquela palavra, repetida várias vezes por diferentes pessoas no local, direcionou sua reação emocional diante da situação extrema. Sandra conta que fez uma escolha consciente, guiada pelo termo. “Essa palavra foi repetida muitas vezes por muitas pessoas. E eu tentei realmente me segurar nessa palavra, de pensar que eu tinha duas opções. Ou eu me entregaria ao desespero, ou eu ficaria realmente tranquila e facilitaria para ter o menor dano possível”, explica.
Desde o acidente, Sandra passou a adotar uma postura ativa na escolha do vocabulário que usa para lidar com a nova realidade. “Eu tento sempre buscar as palavras de força, as palavras de tranquilidade, de superação. Eu tento nunca olhar para a situação e pensar, ‘olha o quanto eu perdi’. Eu sempre procuro olhar, ‘olha o quanto eu posso ganhar’”, afirma.
O que a ciência diz sobre o impacto das palavras
A neurocientista Emily Pires explica que a experiência de Sandra tem base científica. Palavras pejorativas e de violência ativam áreas cerebrais ligadas ao sistema de luta e fuga, preparando o corpo para o instinto de sobrevivência. Por outro lado, palavras positivas podem ativar as ondas alfa no córtex pré-frontal, região associada à criatividade, ao relaxamento e à resolução de problemas.
Um teste realizado pela repórter Helen Sacconi, da EPTV, com um eletroencefalograma (EEG), mediram suas ondas cerebrais e comprovaram essa influência. O médico neurologista Fabrício Borba, com residência pela Unicamp e atuação em Campinas, detalha o processo: “Você falou alguma coisa, eu ouvi. Eu tenho um órgão que vai traduzir essa informação sonora para o nosso cérebro. E aí você gera uma descarga de vários neurônios que vão se comunicar através de neurotransmissores... sem dúvida, realmente a palavra tem um poder bem grande”.
Da neurociência à reflexão filosófica
O teólogo José Boareto amplia a discussão, ligando o poder da palavra à origem da vida e à capacidade humana de discernimento. “A palavra já existia antes de tudo. A palavra que cria, a palavra gera a vida”, reflete. Ele também alerta para a dualidade desse poder, comparando-o a uma espada de dois gumes. “Eu posso usar a palavra para construir ou para destruir. Eu posso fazer o bem, eu posso fazer o mal com a palavra”.
A série “O Poder das Palavras”, com cinco episódios, explora justamente como o vocabulário que ouvimos e falamos tem a capacidade de influenciar pessoas, alterar emoções e moldar comportamentos. A história de superação de Sandra Mara Padilha é um testemunho vivo desse fenômeno, mostrando que, mesmo nas circunstâncias mais traumáticas, uma palavra gentil e repetida pode ser o primeiro passo para a reconstrução.