Caso de Milena do BBB 26: Psiquiatra explica diferença entre identificar e diagnosticar autismo
Milena do BBB 26: Diferença entre identificar e diagnosticar autismo

Caso de Milena do BBB 26: Psiquiatra explica diferença entre identificar e diagnosticar autismo

Nas últimas semanas, a imprensa e as redes sociais têm colocado em discussão o comportamento de uma das participantes do Big Brother Brasil 26, Milena Moreira. Boa parte da conversa gira em torno de um possível diagnóstico de autismo, gerando intensos debates online e na mídia tradicional.

A própria equipe da integrante do programa confinada na casa comenta que ela não possui o diagnóstico formal, mas o público insiste na hipótese e discorre sobre o assunto nos mais diversos fóruns da internet, criando um fenômeno de especulação coletiva.

Diagnóstico versus identificação: uma distinção crucial

O psiquiatra Alexandre Valverde explora a diferença fundamental entre "identificar" e "diagnosticar", explicando por que um diagnóstico representa um percurso técnico complexo e pessoal, que vai muito além das especulações online.

"O termo 'diagnóstico' vem do grego e significa 'conhecer através'. Quando falamos de diagnosticar algo em alguém, devemos considerar que passaremos por uma travessia", explica Valverde. "Um diagnóstico é um percurso técnico, um método, e segue uma trajetória estabelecida para evitar armadilhas no caminho ou atalhos que possam levar a erros."

O especialista destaca que diagnosticar alguma condição ou doença é, antes de tudo, diferenciar o que essa coisa não é. "É necessário excluir muitas possibilidades do que poderia ser até se chegar à resposta definitiva", afirma.

O processo de diagnóstico do autismo

O termo "autismo" engloba diversas condições genéticas que ampliam ou alteram o modo como se percebe o mundo, sensorial, afetiva e cognitivamente. Essas condições modulam a maneira como a pessoa interage com os outros, mas também com o espaço à sua volta e com o tempo, promovendo uma socialização que lhe é própria, muitas vezes díspare das expectativas habituais da maioria das pessoas.

"Isso pode levar a comportamentos de ordenação e estruturação rígida do seu entorno e do seu cotidiano, a fim de evitar a sobrecarga que uma rotina não previsível produz num cérebro hiperestimulável", detalha o psiquiatra.

O diagnóstico do autismo quase sempre acontece após uma longa jornada. O reconhecimento de certos padrões do comportamento, ligados à socialização e rigidez cognitiva, é necessariamente um momento fundamental, mas não é a única etapa do percurso.

Múltiplos profissionais e a ausência de sinais exclusivos

Muitos profissionais podem ser envolvidos nesse trajeto diagnóstico, que não está livre de erros, embora se espere que, com o apuro técnico e a experiência, esses sejam mitigados ao máximo possível.

"É importante lembrar que o autismo não tem um sinal exclusivo que indique certamente tratar-se dessa condição", alerta Valverde. "Esses sinais são mais comuns em doenças físicas, propiciando um diagnóstico mais imediato e menos sujeito a dúvidas."

Com Milena do BBB, podemos dizer que ocorre essa primeira fase de dúvida devido à identificação de certos padrões comportamentais. O programa de TV serve, aliás, a isso: expor comportamentos de seres humanos confinados ao escrutínio público intenso e constante.

O papel das redes sociais e a responsabilidade do público

Nesse movimento de observação coletiva, podemos ver pessoas confrontadas com situações que desafiam nossos conhecimentos e capacidade de análise – até porque, no íntimo, não temos contato com elas fora desse contexto específico e artificial.

"Que o público levante hipóteses sobre a condição de neurofuncionamento de uma pessoa fala mais do público do que da pessoa em si", reflete o especialista. "O tema do autismo tem ganhado presença e força nos meios de comunicação e redes sociais, despertando o olhar das pessoas para condições que antes ficavam invisibilizadas."

Pode ser que o público esteja correto e Milena seria mais uma pessoa com diagnóstico tardio, acelerado nesse trajeto por um contingente imenso que alardeou nas redes sociais alguns aspectos de seu comportamento. Mas pode ser que não seja isso também.

A jornada pessoal e o respeito ao tempo individual

Quem encontrará a resposta definitiva será a própria Milena, em seu tempo e após um percurso pessoal, respaldada por familiares, amigos e profissionais que ela, porventura, venha a consultar, caso se interesse em saber se tem esse diagnóstico ou não.

O caso de Milena do BBB 26 serve como um importante alerta sobre a diferença entre identificar padrões comportamentais e realizar um diagnóstico médico formal. Enquanto as redes sociais podem acelerar discussões e aumentar a visibilidade sobre condições como o autismo, o processo diagnóstico permanece sendo uma jornada técnica complexa que requer cuidado, especialização e respeito pela individualidade de cada pessoa.