Desembargadora denuncia racismo após ser confundida com funcionária em supermercado
Racismo: desembargadora é confundida com funcionária

A desembargadora Adenir Carruesco, do Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região (TRT-23), denunciou publicamente um episódio de racismo estrutural vivido em um supermercado de Cuiabá, no último domingo (17). A magistrada foi confundida com uma funcionária do estabelecimento por uma cliente, que pediu informações sobre produtos e localização de itens. O caso foi relatado por Carruesco em suas redes sociais e rapidamente ganhou grande repercussão.

O episódio e a reflexão sobre racismo estrutural

Em entrevista ao g1, a desembargadora explicou que não registrou boletim de ocorrência, pois a legislação exige comprovação de dolo para configurar crime de racismo. Para ela, a atitude da cliente não deve ser tratada como um erro individual, mas como reflexo de uma lógica social enraizada no Brasil. “Na hora, compreendi o que estava acontecendo: não era um erro individual [...] Ela agiu pela lógica que o senso comum brasileiro internalizou, não por malícia ou ódio. Minha denúncia não é contra uma pessoa; é contra uma estrutura que naturaliza a associação entre o corpo preto e o serviço”, afirmou.

Carruesco preferiu permanecer em silêncio no momento da abordagem, pois entendeu que a situação revelava algo maior do que um simples engano. “Era a manifestação de uma lógica tão arraigada que opera automaticamente”, disse. A magistrada também destacou sua surpresa com a repercussão do vídeo e com a quantidade de pessoas que relataram experiências semelhantes. “Fiquei surpresa com a quantidade de pessoas que se identificaram com a situação. Muitas relataram episódios semelhantes, outras narraram situações muito mais graves. Isso mostra que o que vivi no supermercado não é um caso isolado. É um retrato”, afirmou.

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Representatividade negra no Judiciário

Embora pessoas pretas e pardas representem 55,5% da população brasileira, a presença de negros em cargos de poder e liderança ainda está longe de refletir essa maioria. No Judiciário, apenas cerca de 14% dos magistrados do país são negros, segundo dados do Painel de Monitoramento Justiça Racial, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Nos tribunais superiores, a desigualdade é ainda maior: mais de 85% dos juízes dessas cortes são brancos.

Para Adenir Carruesco, a baixa representatividade de pessoas negras em espaços de liderança é uma evidência do racismo estrutural no país. “A ausência de pessoas negras em cargos de liderança não é apenas um reflexo do racismo estrutural, é a sua prova mais evidente. A magistratura brasileira tem apenas 14% de juízes negros. Juízes pretos — não pardos — são 1,7%. Isso não é sub-representação. É apagamento”, declarou.

Impacto na autoestima e pertencimento

Segundo a magistrada, a exclusão histórica da população negra dos espaços de poder afeta diretamente o sentimento de pertencimento e reconhecimento social. “Ela escancara a lógica que coloca o negro na posição de cidadão de segunda categoria. Afeta diretamente a percepção de valor e de pertencimento da população negra, prejudicando autoestima, desenvolvimento pessoal e profissional”, afirmou.

Carruesco relacionou o episódio vivido no supermercado à ausência de negros em posições de destaque no país. “Quando uma mulher preta é confundida com funcionária de supermercado, não é erro de percepção, é a consequência natural de um país que sistematicamente apagou o negro dos espaços de poder”, declarou.

Desigualdade racial na academia

Em Mato Grosso, a desigualdade racial também se manifesta nos espaços de liderança acadêmica e científica. Um estudo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que analisou dados de 2000 a 2024, aponta que quase 9 em cada 10 líderes de grupos de pesquisa certificados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) são brancos. Pesquisadores negros, pretos e pardos representam apenas 11,64% das lideranças científicas na universidade.

O levantamento mostra ainda que pesquisadores brancos coordenaram 86,3% dos projetos de pesquisa da UFMT no período analisado, enquanto pesquisadores negros ficaram à frente de 9,7% dos projetos. Segundo o estudo, “a liderança científica permanece majoritariamente branca”, apesar dos avanços em políticas de inclusão e acesso ao ensino superior.

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